Na minha rua há um candeeiro sem luz. Há meses que me mudei e nunca acende.
Não tenho vizinhos nas laterais, e na frente só gente de verões e de raros fins de semana. Ninguém se queixa da penumbra deste lado da rua e eu agradeço vir ao quintal e ver apenas a lua e as estrelas. Não sou fã de iluminação artificial, apesar de compreender a sua utilidade.
O céu é muito mais bonito assim no escuro.
Gosto do tempo que se dissolve entre o fim dos dias quentes de verão e as noites frescas de outono. Há uma espécie de brisa subtil e decidida que marca a mudança de ritmo, com a delicadeza típica de quem conhece a razão das coisas e não precisa de as questionar.
Não há na natureza cores como as de outono. Não há estação que se assemelhe mais à grande lição humana - é preciso leveza.
O desprendimento faz parte. Há que libertar o que não serve para que nasça o que faz falta.
Folhas, flores, árvores, bichos, rios ou vulcões... Todos reconhecem e desempenham o seu papel sem dramas. São familiares com a inevitabilidade, sem estranhar absolutamente nada.
São o que são e pronto.
Já nós, os humanos...a "espécie evoluída..." Somos tão dramáticos!!!
Abro a janela, pela brisa e pelo som indispensável do mar lá em baixo.
Já faz mesmo frio e os dias estão cada vez mais curtos.
Todo um convite ao recolhimento.
Desligo tudo - luzes, televisão e computador. Acendo velas.
Queimo resina de incenso. Mirra.
Gosto de velas e das chamas suaves que ardem devagar e iluminam a sala bruxuleando sincronizadas em frente à janela, numa espécie de bailado intermitente.
Já apetecem mantas, meias de lã, canecas de chá a fumegar, castanhas assadas e bolo de laranja.
Faço o chá. Sento-me no tapete.
Gosto de sentir o chão. Deve ser também por isso que adoro andar descalça.
Fico uns momentos em silêncio a arrumar em mim as coisas do dia. Foi cansativo.
Recusei a entrevista de emprego a ganhar bem mais porque não troco nada pela minha praia e o tempo para usufruir dela, e disseram-me:
- "Parece que não tens ambição. Podias ser tão mais que isso."
Ouvi o som metálico de cada palavra e senti-me enferrujada como as cordas de um violino exposto à chuva.
Ser tão mais? Isso, o quê?
Pode bastar-me a simplicidade do usufruto do meu tempo para apreciar o mar e as constelações, ou só devo interessar-me pelas estrelas se forem Michelin?