domingo, 13 de março de 2022

Nó cego.

Não sei se é a vida ou a idade. 
A cronologia só me interessa para não chegar atrasada aos compromissos ou para ter dias específicos para celebrar a rigor, mas ultimamente é mais frequente analisar o habitat para compreender até que ponto o meu desenvolvimento flui de acordo com os sonhos. Introspecção para expansão. 
O tempo, cada vez mais precioso e escasso,
tem dias de análise com direito a celebração. Datas queridas. 
Já são quase todos os dedos das mãos e dos pés, de memórias, olhares e colos de mãe. 
Não é descritível - mesmo com uma imensa noção espacial do cenário no dia, a intensidade da luz e todos os cheiros familiares adocicados no ar - a primeira troca de olhar. O amor à primeira vista. 
Diz-se até que a visão é o sentido menos desenvolvido à nascença e que os bebés vêem tão bem quanto as toupeiras, mas tenho a certeza que naquele momento, ambos vimos o essencial e dissemos tudo o que era preciso nesse abraço iniciante. 
As memórias são estranhas e muito autónomas, não sei bem se teremos alguma capacidade de decisão em relação ao que esquecemos e ao que fica presente em nós como pele que nunca é renovada, mas sei que há detalhes que tenho arquivados algures, como se a minha vida fosse um longo livro escrito em papel com cheiro de jasmim e com um índice de todos os olhares que guardo. O da minha mãe no beijo de boa noite, o do meu pai quando cantava. Os dos meus filhos e de tantos amores que foram ficando meus.
Coleciono-os porque sei que cada um deles transforma o meu olhar numa expressão diferenciada do mesmo amor que dispensa encontrar adjectivos específicos. Todas as pessoas da minha vida me dão um olhar diferente. 
Há quem diga que o pôr de sol é sempre igual mas eu tenho a certeza que não. 


Desafinada

"Ressonância é o fenômeno em que um sistema vibratório ou força externa conduz outro sistema a oscilar com maior amplitude em frequênci...