segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Mais ou menos?

Na minha rua há um candeeiro sem luz. Há meses que me mudei e nunca acende. 
Não tenho vizinhos nas laterais, e na frente só gente de verões e de raros fins de semana. Ninguém se queixa da penumbra deste lado da rua e eu agradeço vir ao quintal e ver apenas a lua e as estrelas. Não sou fã de iluminação artificial, apesar de compreender a sua utilidade. 
O céu é muito mais bonito assim no escuro. 
Gosto do tempo que se dissolve entre o fim dos dias quentes de verão e as noites frescas de outono. Há uma espécie de brisa subtil e decidida que marca a mudança de ritmo, com a delicadeza típica de quem conhece a razão das coisas e não precisa de as questionar. 
Não há na natureza cores como as de outono. Não há estação que se assemelhe mais à grande lição humana - é preciso leveza. 
O desprendimento faz parte. Há que libertar o que não serve para que nasça o que faz falta. 
Folhas, flores, árvores, bichos, rios ou vulcões... Todos reconhecem e desempenham o seu papel sem dramas. São familiares com a inevitabilidade, sem estranhar absolutamente nada. 
São o que são e pronto. 
Já nós, os humanos...a "espécie evoluída..." Somos tão dramáticos!!!
Abro a janela, pela brisa e pelo som indispensável do mar lá em baixo. 
Já faz mesmo frio e os dias estão cada vez mais curtos. 
Todo um convite ao recolhimento.
Desligo tudo - luzes, televisão e computador. Acendo velas. 
Queimo resina de incenso. Mirra. 
Gosto de velas e das chamas suaves que ardem devagar e iluminam a sala bruxuleando sincronizadas em frente à janela, numa espécie de bailado intermitente. 
Já apetecem mantas, meias de lã, canecas de chá a fumegar, castanhas assadas e bolo de laranja. 
Faço o chá. Sento-me no tapete. 
Gosto de sentir o chão. Deve ser também por isso que adoro andar descalça.  
Fico uns momentos em silêncio a arrumar em mim as coisas do dia. Foi cansativo. 
Recusei a entrevista de emprego a ganhar bem mais porque não troco nada pela minha praia e o tempo para usufruir dela, e disseram-me:
- "Parece que não tens ambição. Podias ser tão mais que isso."
Ouvi o som metálico de cada palavra e senti-me enferrujada como as cordas de um violino exposto à chuva. 
Ser tão mais? Isso, o quê? 
Pode bastar-me a simplicidade do usufruto do meu tempo para apreciar o mar e as constelações, ou só devo interessar-me pelas estrelas se forem Michelin? 


2 comentários:

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