segunda-feira, 31 de maio de 2021

O Pacto.

Há noites em que apenas se ouve o som do batimento cardíaco em total afinação. 
Há outros ruídos de fundo, é certo que o mundo nunca sossega, mas não quero saber deles. 
Carrego no botão mudo e ouço apenas o essencial. Outros valores se levantam. 
O silêncio é de ouro, quando faz sentido. 
Como tudo o que faz parte, esse som tem uma canção. 
Essa letra conta uma história. 
A história leva a um rio. 
Escolho o Safarujo que desagua com a proteção e benção do meu Santo padroeiro, o temerário Lourenço. 
O céu está meio encoberto e a lua escondida algures.
O eclipse da semana passada trouxe sombra. Quando há sombra, a luz fica mais intensa e ilumina qualquer canto adormecido que se predisponha a despertar.
Quando há predisposições ou descidas, todos os santos ajudam, é do senso comum. 
No silêncio da noite há uma ponte. 
Ouço o coração e o mar ao fundo. 
No rio, junto à foz, as rãs numa orquestra de coachares que parecem ditar o guião com a extrema sabedoria que só a natureza tem. O cenário tem tudo. 
Atravesso para o outro lado. 
Na ponte, os passos são seguros, ainda que sintam as oscilações do piso. Devagar. 
À medida que avanço para a outra margem recordo o caminho que vou deixando para trás, paro e respiro o ar fresco da noite. Há uma inspiração.
Olho para baixo, para o Safarujo que flui serenamente com a confiança de quem sabe exactamente porque e para onde vai. 
Vejo o mar que avança na mesma direcção e também reconhece o seu papel. 
Selamos o ritual. Sou como um rio. 

domingo, 30 de maio de 2021

Catarse



Tenho esta teoria que quando nos alinhamos com o que sentimos estar certo, todo o universo conspira a nosso favor e nos vão surgindo as pistas, como se o caminho fosse um jogo em formato de enigma. Mesmo que isto não seja cientificamente provado, serve para mim e alimenta-me as convicções, obriga-me a raciocinar e a descobrir-me, a sentir que evoluo passando etapas e níveis e superando os desafios - ou não - mas esse é o objetivo. 
Também vamos interagindo uns com os outros e cruzando competências e mais valias, construindo ou derrubando pontes, acrescentando ou esvaziando espaços, consoante o que é necessário para desenroscar o processo. 
A não ser que seja um Solitaire, que há momentos em que as coisas são só nossas.  É preciso tempo para reconfigurar.
A noite foi curta, mas reveladora. Dormi menos que precisava, mas não insisti. Levanto-me, preparo um café longo, abro a porta ao dia e volto a deitar-me na espreguiçadeira do pátio ainda a pensar se não seria melhor voltar para a cama. 
Está frio. 
A Spooky salta para o meu colo, e começa a ronronar, a oportunista. Acha que as minhas pernas lhe pertencem sempre que as estendo. 
Morar no místico litoral Sintrense implica aceitar a neblina matinal e não perder a esperança que o sol há-de acabar por aparecer quando for altura. Permitir que as coisas aconteçam como têm de acontecer sem que isso nos perturbe, é paz. 
Pego na paz e na toalha e vestida de outono, decido aproveitar a rigor o dia de descanso, na praia. Se o sol se dignar a fazer-me a vontade, é a cereja no topo do meu bolo, se ele preferir brincar às escondidas com a nuvem da serra, vou ao Angra enfardar uma bola de Berlim com creme e rir-me dele com a boca cheia de açúcar. 

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Planeta distante.

Está o sol a desistir do dia quando saio do trabalho sem vontade de o acompanhar. Ainda não estou pronta para recolher. Sento-me na esplanada em frente ao mar, saco do meu livro e peço uma limonada e um húmus com chips que vou depenicando enquanto leio à média luz. 
- Lês bem assim? - pergunta-me o empregado que já me reconhece do local. - Já não há muita claridade. 
Estou tão envolvida nas páginas que nem o ouço. Toca-me no ombro e insiste. 
- Tu estás sempre no teu mundo, não estás? 
Pouso o livro e desço à Terra. Sorrio. 
- Sim, acho que sim. E nem de preciso de ler  livros para que isso aconteça. - respondo.
Ele segue para outra mesa e eu volto para o planeta Angela, sem o livro desta vez. Sempre tive um enorme fascínio pelas coisas do céu. Sol e lua, astros, estrelas, constelações, brilhos e poeiras, coisas lá de cima que me fazem virar o olhar e desviar-me o foco deste microcosmos em que vivemos. Não que queira fugir à realidade, até porque a realidade é relativa. 
O que é real é apenas o que percepcionamos. E o amor. O amor também é real. Viro o olhar para cima em busca de transcendência, de esperança, se calhar. 
Ou das respostas, ou da clareza. Talvez olhe para cima, mas esteja apenas virada para dentro. Não vivo no mundo da lua. Vivo no meu. Consigo fazer tudo daqui. De preferência com phones nos ouvidos e com as músicas das listas que me acompanham. 
Acho que com o passar dos anos saio cada vez menos do meu planeta e também seleciono cada vez mais quem deixo entrar. Não sinto  grande necessidade de conhecer pessoas e prefiro sítios pouco frequentados. É uma tortura ficar em filas à espera para o que quer que seja. 
Não por ter que esperar, mas porque prefiro escolher melhores formas de gastar o meu precioso tempo. Se toda a gente vai numa direcção, eu prefiro ir na outra. Descobrir eu o meu ponto cardeal. 
Há pessoas que dizem que não mudam, como se a vida fosse apenas uma linha recta em que se nasce e morre sem que nada nos afecte ou influencie. Também não compreendo os que dizem que mudam para pior... qual o objectivo de viver se não para se polir o diamante bruto que trazemos a este plano? Eu, já fui mais sociável, é um facto. Agora sou mais selectiva. 
Quando era miúda, muito miúda, passei por uma fase idêntica que me terá passado na adolescência em que saí completamente da caixa. Chamavam-me bicho do mato. Estou apenas voltar a mim, aparentemente. 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Todas as coisas que fiz.

Nada no mundo inteiro me salva tanto como a música. Explico porquê, não querendo depreciar a minha cozinha, a família ou os amigos que estão sempre lá com abraços preciosos e conversas indispensáveis. Nem o mar que me renova tanto, o bosque que me inspira, nem os livros ou as viagens e tudo o que há de maravilhoso nesta vida.  Mas a música transforma-me em segundos, com a maior das autonomias. Sou só eu e os The Killers, hoje, com All these things that i've done, em modo karaoke sem monitor e em repeat, até absorver a nível celular. 
De energia máxima injectada, decido-me a mudar a disposição dos móveis na sala. Viro o sofá umas 3 vezes, pobres costas, as minhas. Ainda bem que só tenho 4 paredes. Troco o móvel das gavetas de madeira maciça, que tem uma espécie de altar e também agradeci a sala ser um quadrado. Viro a mesa, também de madeira maciça e que não me deixa grandes opções. Não tenho assim tanto espaço de manobra. Que sorte, acho!
Quando finalmente me decido pela disposição aparentemente perfeita, fico com o quadro eléctrico à vista e a minha necessidade de harmonia não aguenta. Decido tapá-lo com um dos espelhos. 
Fui buscar o berbequim e lembrei-me do dia em que o recebi de prenda. Uma caixa Black & Decker com uma mensagem subliminar do pai dos meus filhos - pára de me chatear para fazer furos nas paredes e descobre tu como se faz. 
São curiosos os caminhos para a libertação. Por um lado queria que participasse no decor comigo, por outro podia furar o que me apetecesse sem esperar que colaborasse. 
Sei que na altura senti um misto de revolta com emancipação.
Mais tarde, quando nos separámos e ganhei coragem para comprar um vibrador, já só senti a parte da emancipação. O momento até conseguir entrar na sexshop, que durou semanas, desde o dia em que assumi que queria, até ao dia em que entrei envergonhada, muito envergonhada e meio a tremer, foi todo um processo muito longo. Nem sei o que demorou mais, se assumir que queria, depois de uma conversa com amigas que falavam em brinquedos sexuais como eu falo de ingredientes de culinária, se entrar na loja. Tinha já uns quarenta anos quando dou por mim a perceber o quanto era púdica e estava impregnada em tabus, mas o mais estranho é que me surpreendeu, a constatação do facto. Entrei, decidida a deixar de ser o que não era. E saí de sorriso na cara e com um grau de satisfação tão elevado que já quase dispensava o brinquedo. 

domingo, 23 de maio de 2021

O som do silêncio.

-Vamos ver o mar? - desafiou-me. 
Eu moro em frente ao mar, vejo-o todos os dias. Não seria por isso, certamente. 
Hesitei no início. As mensagens mais simples podem confundir-nos, por vezes. 
Dos meus olhos, eu sei. Estão preparados para todas as marés, mesmo as vivas que enchem a costa de lixo e reduzem o espaço do areal. De casa, consigo ouvir se as ondas estão calmas ou turbulentas, se o cheiro está intenso ou delicado. Sinto-o ao longe. Sei quase tudo deste mar, mesmo quando não olho para ele. Nos dias em que a turbulência está em mim, bastam-me uns minutos de contemplação, molhar os pés na água salgada gelada e deixar que suba e me refresque as ideias. O meu mar é muito meu. Tudo em mim é. Escolho a dedo com quem partilho o que acho que possuo. 
Concordei, ainda assim, com o espírito aventureiro de quem procura sempre ver o lado desafiante das situações, mesmo sabendo que cada olhar tem a sua visão muito própria. No mesmo cenário, cada um vislumbra apenas o que consegue alcançar. Eu orgulho-me de ter uma visão periférica, não como a dos peixes, que não me sinto nada uma criatura marinha. Preciso do mar porque não o sou, mas por norma, encontro o que não é visível a olho nu com alguma facilidade. Analiso com curiosidade a paisagem, e sei ao que vou, mesmo que não pareça. Entro nas águas agitadas que assustam ao longe, porque sei que vou aprender com elas. 
A experiência transforma quem não resiste a deixar-se fluir. Mas fui. 
Quis ir, qual navegador de cabos e tormentas, preparada para mergulhos serenos e alguns naufrágios, sem brevets ou mapas, mas decidida a não largar o leme. Nunca nada se perde e é preciso alargar horizontes e partilhar pontos da mesma vista, mesmo que se sofra de medos, miupías ou astigmatismos e essas coisas todas que nos deturpam a realidade do que parece ser. 
É tudo muito mais simples do que julgamos. A vida pode ser só uma história de miúdos destemidos que se divertem a navegar. As crianças sabem sempre do que importa, como o Pequeno Príncipe que na sua grandeza, sabia que o essencial é invisível aos olhos e certamente saberia que este passeio não era sobre ver o mar, mas sobre o "vamos". 

sábado, 22 de maio de 2021

Ponto de Viragem

Li algures, há algum tempo, que as maiores bênçãos nos aparecem disfarçadas de dolorosas lições. 
Que confusão me fez, na altura... Benção e dor não me faziam o menor sentido no mesmo contexto. 
Ainda hoje, talvez só entenda o processo quando já só sinto a leveza. Depois de largar as ilusões e cair na real. No início,  estranha-se, o desfoco, mas a queda liberta pesos e as asas acabam por se revelar, mesmo sem essa consciência, no momento.
Todos temos naturezas distintas, bem sei, e ainda bem. Mas também acredito que somos todos um pouco de tudo, apesar de alguns de nós manifestarmos mais umas coisas que outras. Porquê? Não faço ideia. O mundo deve precisar dessa  heterogeneidade. 
Nós, provavelmente precisamos de passar por tudo, para evoluirmos no caminho. 
Adiante, que não posso ter respostas para tudo. E sinceramente, cada vez quero menos. Parte da minha natureza, reconheço, é agir e reagir. Marte em carneiro, que sina... Sou uma fazedora. Tamanho cansaço!
É doloroso contrariar essências. Desfazer hábitos de anos é quase como uma amputação de um membro. Se há um problema, é preciso encontrar uma solução. Se há uma dúvida, é preciso esclarecê-la, se há uma brecha, vou repará-la - Adília Lopes, não és a única, lamento. 
Reparar os outros, claro. Manobras de distração, óbviamente.
Sim, tenho um complexo de Atlas, que é uma patologia que acabei de inventar só para mim, que sinto que sou a responsável por todos os males do mundo. 
Há uns 12 anos atrás, dizia-me o professor Medeiros - " Você é autónoma, não precisa de ninguém". 
Que drama, senhores! Se não preciso de ninguém, vou fazer o quê da minha vida? Como se vive sem cuidar de alguém?
Pobre lua em virgem, a cuidadora. 
Isto torna-se numa espécie de vício doentio que ajuda a desviar o foco do espelho. 
Toda uma vida a fazer coisas. Coisas que nem são minhas, para fazer. Faço as minhas e a papinha toda aos outros, coitados. É preciso cuidar, diz-me a lua. 
Os caminhos são individuais, mesmo quando convergem, contradiz-me a vida. 
Atlas, leva o mundo aos ombros. Faz o caminho pelo outro, porque é esse o seu papel. Eu até tenho as costas largas e tudo, mesmo que me justifique com os quatro anos de natação, há pesos que já não me cabem. Percursos que não me pertence fazer. 
-Não são meus! - percebo eu, de olhar perdido no mar, enquanto a Diana me faz uma trança no cabelo e confessa que o sonho dela é fazer penteados bonitos e não servir às mesas. Pego no Google para a ajudar a encontrar um rumo. Malvado instinto altruísta...
-- É preciso seguir os sonhos, menina! 
O André faz-me um Sipping Sunshine de tequila e manga, enfeitado com sementes de maracujá, o sol está despedir-se e eu decido sorvê-lo até à última gota e raio e largo o telefone. Pouso também o mundo na almofada azul e espreguiço-me com uma leveza desconhecida ao reconhecer o caminho que é só meu.
- Diana, faz-te à vida, se precisares de mim, estou aqui. 
 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Fora da caixa

16-12 - a minha data de nascimento em tensão arterial quatro dias seguidos. Pulsação acelerada e silenciosa e eu calma, ou a achar que estou. 
Durante anos era tão fácil disparar-me o ritmo ... nada como uma ocupação forçada de espaço, uma invasão explícita de pensamento ou uma injustiça imposta qualquer para que todas as minhas células que se dividem em fogo e ar, entrassem rapidamente em combustão. 
Nisto, preciso algum tempo para compreender e analisar cenário, respirar fundo, acalmar o coração. Numa fracção de segundos, o sangue bombeia de 0 a 100 como se eu não mandasse em mim. 
Hoje já é um pouco diferente. Não que seja invadida por um ritmo zen imperturbável e que lembre sempre a importância da respiração e de um modo de estar constante em perfeita mindfulness - passo a vida a esquecer-me. Até de respirar! 
A tampa continua a saltar-me e ainda é relativamente fácil, o fenómeno, a quem estiver tentado a testar. Mas há um factor que faz toda a diferença e que está cada vez mais presente - hoje, eu testemunho ao longe o que está a acontecer em mim e consigo compreender-me sem que o fogo descontrolado me consuma. Cada vez mais. Compreender, é essencial. 
A compreensão é pessoal e intransmissível, no fundo é um processo de  digestão mental, até que nos faça sentido e seja absorvido pelo coração, quando mais leve e limpo. 
Sei que há coisas minhas completamente incompreensíveis a outros, até o facto de me ser cada vez menos importante a opinião exterior. 
Quem importa, compreende. 
Sempre achei que era diferente. Todos somos, eu sei. Mas há pessoas que se adaptam a tudo e não procuram sequer o sentido. Vivem apenas e são felizes assim. A mim, é o que me faz sentido que me faz feliz.
 Também durante anos me preocupei, que ao ser diferente, pudesse parecer arrogante. Também sou arrogante a tentar ser o que não sou, mais vale assumir, que assim faz muito mais sentido. 
Resumo a minha vida a mim, hoje, em primeiro lugar e sem me importar no que isso pode parecer aos outros. Não faço listas mentais de prioridades de afectos, mas é-me muito claro que quem está no meu coração - e quem entra, fica, a não ser que prefira sair, a liberdade é sempre uma escolha - tem sempre tudo de mim, a qualquer hora e em qualquer lugar. As minhas pessoas são fundamentais à  simetria emocional que preciso sentir. 
As outras pessoas, as dos julgamentos e das verdades absolutas, as dos devias era fazer assim e não assado, as que questionam opções e maneiras de estar que fogem ao que é considerado normal nas suas lindas mentes com tanto ainda para abrir, têm de certeza todo um percurso de descobertas inéditas pela sua frente. Ou não, passa-lhes ao lado tudo o que realmente importa. Não que eu saiba o que é mais importante aos outros, também não tenho verdades absolutas, nem quero ter. 
Mas tenho a minha verdade e quero vive-la. Faz-me bem ao coração. 

Desafinada

"Ressonância é o fenômeno em que um sistema vibratório ou força externa conduz outro sistema a oscilar com maior amplitude em frequênci...