terça-feira, 30 de março de 2021

Balancé

Decidi que ia ser um bom dia mesmo com o céu carregado de nuvens. Logo hoje que queria tanto uns raios de sol... 
Os anos vão passando e eu continuo sem saber lidar com a saudade. Esta mente excessivamente marciana pede solução para todos os problemas. Há problemas que a única solução é aceitar que nunca se vão resolver. Se calhar o que não tem solução não é sequer um problema. Se não for um problema, fica mais fácil. 
A verdade é que há coisas que nunca passam. Agarram-se à nossa hipoderme, bem lá no fundo, onde não há esfoliante que chegue e aprender a viver com as células mais pesadas é todo um processo. 
No início não foi sobre mim, mas como conseguir aguentar o barco que levava toda a gente que parecia não saber nadar. Quando as águas ficam demasiado agitadas o nosso instinto de sobrevivência leva-nos a esbracejar como se não houvesse amanhã, afinal tínhamos acabado de ser confrontados com essa dura realidade. 
-Às vezes não há amanhã. Foi assim que vivi essa tempestade que nunca trouxe bonança e insiste em permanecer nas memórias em jeito de lembrete dissolvido numa missão muito específica - hoje, pode ser sempre o último dia. 
Entretanto, começou a ser sobre mim. Já me permito a distanciar-me dos outros e a aprender a flutuar. Aceitar a água, as tempestades, a hipótese de me faltar o ar quando a corrente é demasiado forte, sem medo de ir ao fundo. Como se lida com a saudade que não se consegue resolver? Faço uma homenagem, acendo uma vela, cozinho favas e fico atenta a todos os melros que me trazem mensagens. Escrevo cartas como se recebesse respostas de volta. Tento pacificar o meu coração, consciente de que - como diz alguém que conheço - temos dias BC, umas vezes para baixo outras vezes para cima. 

domingo, 28 de março de 2021

Quo vadis

Vesti-me para ir à praça. Estou numa de aproveitar ao máximo o tempo livre e tirar partido desta harmonia que é estar de volta ao lugar que sinto como casa. Peguei na cesta e na lista e fiz-me ao caminho. Quero comprar favas para o jantar. A refeição do fim do dia acompanha um momento precioso a três, eu e os meus filhos, normalmente recheado de conversas e regado de contra argumentações deliciosas que alimentam os meus dias e me dão uma sensação de  saciedade ao observar de perto as pessoas que se estão a tornar. Se bem que às vezes fico a pensar se serei uma mãe suficientemente competente por sentir que os meus filhos me ensinam mais da vida do que eu a eles.
Também pode ser desta era. As novas gerações evoluem a uma velocidade tão grande que nos sentimos completamente desfasados do mundo num piscar de olhos, enquanto eles estão atentos. Muito atentos. E também conscientes, que foi uma palavra que só compreendi já depois de ser mãe deles. Os meus filhos sabem lidar com as emoções, eu ainda estou a tirar o curso. Conseguem relativizar e ter uma atitude imparcial. Conseguem elevar-se da cena, observar o cenário e os intervenientes, ver para além do óbvio e cru. Não são criaturas de esbanjar afectos, antes pelo contrário. À primeira vista parecem snobes e desplicentes no trato, mas na verdade são muito empáticos e lúcidos e ao fim de algum tempo, após raio x escrutinador, acabam por revelar a essência empática. Não têm pachorra para conversa fiada. Gostam de boas argumentações, de temas com conteúdo, de questionar conceitos e teorias instituídas, não se ficam, desde pequenitos com um - é assim, porque sim. 
De tão envolvida que estou nestes pensamentos adocicados nem reparo na mancha verde fluorescente quase a chegar à praça até uma guarda se atravessar em frente ao meu carro e me fazer sinal para encostar. A mim e a mais uns dez carros...
Devia ter hesitado  antes de pensar em ir comprar favas, essa leguminosa diabólica que até foi banida das escolas filosóficas de Atenas, penso eu a disfarçar o nervoso. 
-"Bom dia, onde é que a senhora vai?" 
Chegámos a isto, a sério? Hoje a conversa ao jantar vai durar até à ceia, se me deixarem chegar à praça entretanto... 

quinta-feira, 25 de março de 2021

Manhãs

Virei a cabeceira da cama para a janela. Espero que seja bom para o feng shui, porque é muito prático para mim. 
Abro os olhos, espreguiço-me, estico o braço direito e empurro a portada sem mexer o resto do corpo. A luz entra e fico mais uns minutos a apalpar o dia e a despertar devagarinho, acenando um até logo a Morpheus. 
Nos dias mais inspirados e se calhar quando entra sol, ouço canções dentro da cabeça e todos os movimentos me parecem uma coreografia em câmera lenta até ao momento de me separar dos lençóis de flanela e vagarosamente colocar um pé no chão frio, enquanto esfrego os olhos e procuro os chinelos. Há um estranho prazer nestas compulsões diárias a que prefiro chamar rituais. Curiosa e paradoxalmente há coisas que me aborrecem de morte se as tiver que fazer sempre da mesma maneira. 
Ritual só é rotina se não nos fizer bem, mas ainda assim, às vezes experimento fazer tudo de maneira diferente só para garantir que não me estou a acomodar em excesso nem a enraizar demasiado os hábitos. Tudo em nome da evolução e do desprendimento. Nem sempre é fácil viver nesta pele exigente.
Depois de conseguir lutar contra a gravidade,  rendo-me ao meu despertador favorito que me acorda para lhe dar o pequeno almoço, tem dias que ainda antes das sete da manhã. A minha gata que pensa que mia, porque é essa a voz dos gatos, mas por alguma razão que desconheço, fala como uma macaquita que só sossega quando lhe coloco a comida na taça. Salta para a mesa da cozinha e começa a ronronar - isto é em gatês - enquanto abro a lata. Ela é que tem uma grande lata, que a seguir ainda me pede mais, antes de me ocupar o lugar na cama com aquele ar que cumpriu a sua missão diária. Macacar e acordar-me. Às vezes ainda me deito mais um bocadinho, quando ela madruga demais e eu durmo de menos e a quero lembrar que também ocupo território no colchão, como se ela quisesse saber. 
É definitivamente um exemplo a seguir a quem ambiciona uma vida simples, como eu. Sim, vida simples, mar, descanso e ar puro. É que este ano, ou é dos astros, ou dos vírus, Nostradamus ou o calendário Maia, o glúten ou a lactose ou se calhar só mesmo as pessoas, mas que há dias em que até o ar parece mais denso, há. Faço as torradas e lembro-me que é preciso desdramatizar. Sento-me no pátio, a gata salta para o meu colo. No telhado em frente está um melro que parece gozar com ela lá de cima.
Bebo um golo de café e olho para a glicínia que precisa de um vaso maior. 
Está quase tudo no sítio, até eu. 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Pé no chão

Há coisas que não dão para explicar. Vai-se vivendo e um dia olhamos para trás e percebemos que está tudo diferente. 
A verdade é que milagrosamente vamos deixando de querer ser alguma coisa diferente do que realmente somos.
Depois de meia dúzia de mudanças de casa em apenas meia década, já tenho um curso intensivo em triagem e desapego das tralhas a encaixotar que levo para o espaço que se segue, certo? Errado! 
Aquela caixa de maquilhagem que transporto - pensava eu, orgulhosamente - há anos, tem 7 vernizes, 6 batons, 4 conjuntos de sombras!!! Uns 10 lápis para olhos, 2 eyeliner e 3 rímel. Fora os cremes com cor, e outras poeiras cheirosas e pastas cremosas para transformar o aspecto geral de qualquer tez que se ponha a jeito. Esta panóplia de material de embelezamento feminino que insisto em transportar de casa em casa, só pode querer dizer que diariamente acordo 25 minutos mais cedo para conseguir depois do creme de rosto - só um creme por favor, para olhos, pescoço e afins - usar iluminador, font de teint, pó solto, anticerne, sombra, eyeliner, blush, baton e de certeza que com a minha falta de actualização nestas lides, haverá espaço para mais alguma coisa.
A questão é que...não adoro maquilhar-me. Nem consigo pintar as unhas. Fico cada vez mais desconfortável com a sensação de ter a cara suja.
Sim, os olhos ficam mais profundos, os lábios mais carnudos, as maçãs do rosto, cheias de vida. O espelho agradece, os piropos aparecem, a auto estima sobe.
Mas sinceramente, a minha praia é outra. 
A minha praia não dispensa a pele lavada e hidratada, com conforto, sem repuxar. 
Aceito as rugas e vincos de expressão, embora tenha algum desprezo inconformado pela flacidez. Compreendo que as tintas não são saudáveis para os cabelos, mas ainda não estou pronta para a explosão dos meus brancos, tipo cogumelos em chão húmido e escuro. Adoro saltos altos, mas de preferência longe dos meus pequenos pés que precisam andar descalços e mesmo assim já passo a vida a tropeçar, sem me esforçar muito. Tenho dias em que me esqueço de escovar o cabelo, apesar de nunca me esquecer de passar creme no corpo e me borrifar com o meu aroma favorito.  E de certeza que apesar de ter cerca de 8 espelhos nas paredes de casa, raros são os dias em que me lembro de olhar para o meu reflexo. 

segunda-feira, 22 de março de 2021

Distorção

O calor precoce e intenso do dia, transforma-se em frio atrasado e em demasia depois das oito. Não me desagrada de todo a ideia de biquínis e limonadas frescas, durante o sol da tarde e lareiras com chá fumegante, na sala, à noitinha. 
O melhor de dois mundos num só dia. 
O céu está cheio de estrelas e a lua em crescente. Contemplar os astros ajuda-me a colocar tudo o resto em perspectiva. Conhecemos durante a vida quase tantas pessoas como as estrelas que consigo contar daqui, sem óculos. Enquanto algumas ficam para sempre e também nos vão iluminando pelos caminhos e crescendo connosco, como a lua, outras vão para galáxias diferentes, fazer outras coisas e pairar sobre outros mundos e outras pessoas. 
Não sei se será aleatório quem vai e quem fica, quem desaparece de vez ou quem regressa depois de algumas voltas ao sol. 
Nem se teremos algum poder de decisão e escolha ou se dependerá apenas do que ficou escrito no céu que viveríamos um dia, mesmo que contra a nossa vontade. 
Olhar assim para a noite estrelada em fascínio inexplicável, também me lembra que não nos basta estar sobre o mesmo céu para ter algum conhecimento ou controlo na imprevisibilidade dos acontecimentos da vida. Nunca olhámos para uma estrela ao perto, mas sabemos que são tão bonitas...
 Já a olhar para os humanos, este astigmatismo pode ser perigoso. Até mesmo bem de perto nunca os vemos na sua plenitude. 
As estrelas são o que são. Há pessoas que nem por isso. Ofuscam tanto com a sua luz que ignoram a própria sombra, para se agarrarem à ideia que brilham o suficiente para serem vistas. As estrelas não querem saber disso. Limitam-se a ser o que são, nunca se escondem nem fingem ser outra coisa além de poeiras, hélio e hidrogénio.
Sabe-se, que quando duas delas estão em órbitas relativamente próximas, a interação gravitacional pode causar um impacto significativo na evolução de ambas.
Seria maravilhoso se algumas pessoas também conseguissem evoluir, afinal somos todos feitos do mesmo pó estelar. 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Kintsugi

"É uma verdade universalmente reconhecida que, quando uma parte da vida começa a dar certo, outra parte começa a despedaçar-se de uma maneira espetacular". Será mesmo?
Não é bem como a lei de Murphy. 
Aqui, acho, é mais aceitar que há sempre sombras, mesmo quando a luz é muito intensa, inebriante e tão viciante que só queríamos que fosse para sempre assim. 
Não é. Não pode ser. É quase como um equilíbrio que certamente dispensávamos, mas que é necessário à coesão do todo, além dos nossos umbigos. 
Não há nada de espectacular em pedaços despedaçados de partes de nós, eu sei, nem mesmo a maravilhosa técnica do kintsugi, a perfeita imperfeição, nos deixa vislumbrar a beleza dos nossos cacos. 
O que nos faz sentido é tudo inteiro e perfeito perfeito, e de preferência no sítio que nós escolhemos e enquanto nós quisermos. 
Não há beleza em cacos, mas há tanta leveza em aceitar que as coisas se  partem. Tanta poesia no desprender ou no tentar colar, deixar ainda mais bonito e resistente que alguma vez foi. É preciso reparar as brechas com entusiasmo, cuidar do que se parte com carinho. Honrar cada pedaço partido com a mesma devoção com que honramos cada minuto de inteireza. 
A vida é tão mais simples do que nos parece. O entusiasmo vem com a entrega. 
A entrega traz a coragem. A coragem e o entusiasmo despertam o estado de graça. O estado de graça está em nós e faz magia. A vida é mágica. A bússola é o que nos faz vibrar. Não importa se amanhã há pedaços partidos. Importa que agora estejamos inteiros, mesmo de pedaços colados.
O agora é o novo para sempre.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Apolo's rising

O sol entra pelas frestas da portada verde, quando abro os olhos. Vai ser um bom dia. O astro rei define humores como ninguém até à chegada do verão. Aí os dias são sempre luminosos, queixamo-nos de outra coisa qualquer. Bem, quando vivemos em Sintra isto não é regra, é verdade.Temos direito a usar este argumento mais amiúde. 
Devia bastar estar sol, cheirar a mar e não ter horas para sair da cama espaçosa e quentinha, mas parece que ainda não chega para acalmar o desassossego. 
Será o que fazemos que nos define como pessoas? Dois meses sem trabalhar e sem grandes perspectivas é como estar a voar num tapete mágico que ao olhar para baixo percebo que não existe e isso pode implicar cair sem saber bem como ou onde. A magia da indefinição é que tudo pode acontecer. A caminho da queda lenta, longa e algo vertiginosa - sim, as vertigens desde a subida à Tour Eiffel - há tempo para equacionar e questionar toda uma existência que fica para trás. 
Onde começou tudo e em que parte foi deixando de fazer sentido? Quem era eu antes dos cursos, filhos, empregos e da busca incessante pelos dons e amores recíprocos e eternos. 
O que me acrescentou mesmo a sério e me deu pano para as mangas desta pele que visto? Quem serei eu agora, depois de filhos quase criados, alguns amores frustrados e completamente desconfigurada do currículo de vida... 
Há uma frase de Nietzsche que li uma vez e me ficou para sempre:
- "As convicções são cárceres. Mais inimigas da verdade do que as próprias mentiras."
Ora, convicções tem sido o meu sobrenome desde que nasci. Esse é de certeza o factor essencial da equação onde sou a incógnita. 

Desafinada

"Ressonância é o fenômeno em que um sistema vibratório ou força externa conduz outro sistema a oscilar com maior amplitude em frequênci...