Há gente que nasce com emoções à flor da pele num mundo que as enterra como sementes, algures nas vísceras.
Algumas ficam ali perdidas, recalcadas, asfixiadas entre - e ses e politicamente correctos - e nunca chegam a concretizar fotossínteses. Outras são polidas e maquilhadas ou mascaradas, podadas para não brotarem enquanto embrutecem.
Eu não manifesto as minhas, deixo que me manifestem a mim. Prendo algumas debaixo do escalpe. Saiem-me pelos cabelos, sem eu querer, em dias de vendaval.
Outras dissolvem-se em gotas de suor quando a temperatura me sobe sem esforço e me faz arder, ou misturam-se nas claras dos ovos e eu bato-as em castelo doce e leve e deixo que cresçam num soufflé.
Nasci com o coração na boca e às vezes esqueço-me e mordo-lhe sem querer.
Outras vezes engasgo-me, quando fica maior que as palavras que consigo dizer.
Devia era ter nascido com dois, para deixar um deles abrigado no peito onde só entram flores, silêncios e notas musicais.
Para guardar e aguardar as sinfonias.
E outro a acumular experiências entre tropeços ergonómicos estruturais, ruidoso, condutor, modelador. Para gastar e partilhar.
Corações ou asas, vá. Também duas, claro. Podia visitar cidades já construidas, fora de puzzles. E ouvir o som dos corações entre voos, em viagem. Ver tudo em silêncio lá do cimo, como se a pulsação fosse o verdadeiro som do mundo.
Se tivesse nascido muda, teria certamente encontrado um vocabulário mais próprio e eficiente para comunicar.
Os diálogos silenciosos têm mais polpa e textura. Às vezes acho que engoli um torno que se move lentamente, espremendo palavras soltas, quase inúteis, baralhadas na ânsia de encontrarem uma prosa.
O silêncio é que é poético.