terça-feira, 18 de abril de 2023

Desafinada

"Ressonância é o fenômeno em que um sistema vibratório ou força externa conduz outro sistema a oscilar com maior amplitude em frequências específicas."
Isto até podia ser uma coisa boa. 
Para dismistificar: acho que já fiz coisas piores. 

Anos de displicência no selfcare levam-me a 30 minutos de uma especie de orquestra de martelos pneumáticos, sirenes e impressoras barulhentas, enfiada num pequeno túnel, apertado, sem luz para ver ao fundo. 
A cronometrar o tempo em canções pirosas de uns phones meio tortos que me enfiaram na cabeça para aliviar os sons metálicos ensurdecedores. 

Não foram os 30 minutos mais longos da minha vida. 
Nota: não é tão difícil como nos dizem que é. 

É curioso como passamos tanto tempo a julgar que sabemos o que somos e o que não somos e na verdade, não sabemos ponta de um corno. 
Keeps blowing my mind. 
Desde que me lembro, sofro de bicho carpinteiro, acho que nem a dormir aguento mais que 5 minutos na mesma posição. Meditar é um desassossego - as costas que doem, o pescoço tenso, as pernas dormentes, os pensamentos mais estapafúrdios engalfinhados uns nos outros, entre respirações apressadas de urgência de qualquer coisa imprescindível de fazer a seguir. Raramente imprescindível...e raramente urgente.

Vem a vida e diz - "a partir deste momento não se pode mexer ou teremos que repetir o exame. Tem que se manter nessa posição durante pelo menos 30 minutos."

Ah, também sofro de claustrofobia. 
(Duas vezes pelo menos presa em elevadores, uma delas com a minha mãe, era eu adolescente. Dá para ter uma ideia, certo?)
Não me enfiem em espaços pequenos e apertados que eu gosto de largueza. 
Também nunca fui de vales, preciso da amplitude das planícies onde o ar circula livremente e de um só ponto consigo vislumbrar toda a linha do horizonte à minha volta. 

Mas entrei no túnel. E não me mexi. 
E tive uma estranha sensação de paz no meio do apocalipse estridente. 
- Eu consigo parar. 

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Total Eclipse...of the heart.

Chove a cântaros. O caudal dos rios, agradece. Eu nem por isso. Só hoje. 
O outono está vestido de inverno e tenho frio. Apanhei uma molha gigante a caminho da lavandaria e apetece-me reclamar do chão escorregadio, da roupa humida até aos ossos e de mais umas coisas, para aproveitar o embalo. Deve ser das hormonas. 
Tento mudar o foco. A água é uma bênção, mesmo quando nos cai do céu e ensopa as toalhas de banho esquecidas no estendal ou a alma que também precisa de sol em dias mais nublados.
Sento-me à espera a olhar para a máquina de lavar às voltas. Pego no telefone. Pelo menos aqui há wifi, não vá eu perder alguma coisa daquilo que se passa de relevante no mundo, sem net em casa há 4 dias. Salto as notícias das inundações por todo o lado. Okay, a chuva faz falta, mas não é preciso exagerar... Abro o insta, essa biblia essencial à minha futilidade quando me apetece não querer saber de mais nada. 
Como é que hoje em dia, mulheres que acabam de parir conseguem ficar com ar de quem sai de um retiro de yoga com 3 dias de spa, liftings, maquilhagem, unhas e cabeleireiro, camisas de noite de linho ou seda da Zara Home e criancinhas tão cor de rosa e fofinhas que parecem nenucos perfumados? Isto existe mesmo?
Eu nem me lembro o que enfiei na mala para vestir quando fui parir o primeiro, alguém tem tempo para pensar nisso? Sei que quando foi do segundo, porque há fotos do mais velho enternecido a olhar para o bebé acabado de nascer ao meu colo, tenho uma camisa de noite da Mothercare, de algodão cor de rosa, super largueirona e pirosa, provavelmente manchada de leite, a tresandar maternidade e falta de sexyness, o cabelo todo desgrenhado e o ar corado e embevecido de quem demorou 9 meses a escalar o pico do Evarest para dar à luz o que pareceu naquele momento um pedaço da enorme montanha.
As minhas crias, as mais bonitas do mundo, no dia do nascimento e para todo o sempre, vinham todas enrugadas, quase roxas e com umas trunfas de fazer inveja a muitos adultos sem grandes problemas de calvice. 
Será este momento fotográfico mais ou menos instagramável determinante para o futuro sucesso e prosperidade das famílias, jamais saberei. Acabei de entrar na pré menopausa e de descobrir que presentemente os meus maiores prazeres diários são coisas tão fáceis e simples como desapertar o soutien, despir a roupa e cair na cama como se não houvesse amanhã. Sem camisas de noite pirosas, é certo. Mesmo quando estou sozinha. Isto faz-me esboçar um sorriso que estava a teimar ficar escondido hoje. Reservo-me ao direito de também ter dias de chuva como as nuvens. Sem me esquecer de me sentir grata! 
Ontem passei o dia a sorrir e de coração cheio por ter recebido um gesto de bondade de um desconhecido, hoje já me esqueci, a culpa é do estrogénio que parece que acentua as alterações de humor. Prometo melhorar, ainda assim. São hormonas, mas são as minhas, merecem o melhor. 
Sim, ontem até me vieram as lágrimas aos olhos:
-Vou ajudá-la porque acho que temos que ser uns para os outros.
Que raio nos terá acontecido para chegarmos ao estado em que a bondade humana nos apanha tão desprevenidos ao ponto de nos comover? Normalizámos tanto a indiferença e a individualidade que um gesto inesperado, nos atinge como um murro no estômago dos que não doem? Estranhamos o que é realmente bom? 
A chuva também é! 

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Gratidão rima com coração.

Vou contar-te uma coisa sobre corações que são mais que músculos pulsantes, válvulas, artérias e fluídos coloridos imparáveis, espessos e quentes. 
Sim, eu sei que isso tem a sua importância, mantem-nos vivos. Mas alguns, além das funções orgânicas, estão cheios de pérolas por dentro. Sabias?
Já te disse como se formam as pérolas, certo? O quanto é doloroso para o bichinho produzir a deslumbrante jóia? Li sobre isso em tempos e fiquei fascinada. 
Sempre achei que transformar desconforto em pedras preciosas é um dos dons mais admiráveis deste mundo! Isto lembra-me de Van Gogh e daquele filme que vi sobre a sua vida em que chorei o tempo todo, como no concerto dos Tindersticks. Belezas diferentes, mas igualmente exuberantes. 
Sei que compreendes o que quero dizer.
Conheço uns corações assim. De tempos a tempos contraem-se nas suas conchas. 
Faz parte da expansão. A alquimia não é instantânea, leva o seu tempo. 
Tu sabes, que também não és de pressas. 
Há um que é tão grande, tão grande, que é quase maior que o peito que o segura, até alarga as costelas e empurra os pulmões. 
Se observarmos de perto com cuidado notamos a desproporção, mas compreendemos por quê. 
Há sempre harmonia quando se transborda doçura. E de doces, tu sabes que eu percebo bem e nem aprendi com ninguém. Vêm daquele sítio puro e selvagem, que nunca chega a ser desbravado, livre de influências, que falavamos a semana passada. 
Lembras-te? Naquela noite em que decidir a importância dos astros era tão mais relevante que dar descanso ao corpo e à mente depois de um dia tão cansativo!
Foi mesmo divertido, ainda assim...mas estou a desviar-me do assunto!
Este coração em particular, não abre estores para não desnortear a andorinha que lhe fez ninho à janela. Conheces mais alguém que faça isto?! Tem um respeito muito especial pelos laços de mães e filhos e a sua preservação, só pode. 
Aposto que além de pérolas é capaz de produzir outras jóias que ainda nem sonha.
Eu sei que tu achas que uso óculos sagitarianos que me fazem ver tudo mais bonito do que é. Mas como não és a favor de sistemas de crenças e de interpretações alheias não provadas, vai por mim. 
Também ninguém conseguiu provar que o meu olhar é desfocado, e juro que um dia hei-de encontrar um espelho para corações só para que vejas o que eu vejo. 




terça-feira, 17 de maio de 2022

Torre de Babel.


Não é impressão minha que este mercúrio retrógrado está a tirar uma carrada de gente do sério, pois não? 
Sim, acredito em astrologia. E depois?
Até aos pseudo cépticos dá um certo jeito a desculpa dos movimentos planetários aparentemente inversos, sempre se pode responsabilizar algo ou alguém da nossa falta de equilíbrio. 
Mas, apesar de tudo, o que conta o é que acreditamos, certo? E desculpem que vos diga, mas isto, numa sagitariana, tal como tudo o resto, é levado ao extremo. Quem percebe um bocadinho desta temática compreende o que quero dizer. 
Eu acredito em astrologia e empino o nariz em defesa das minhas convicções. Acredito que tudo o que faz parte do mundo está ligado por uma infinita rede de fios invisíveis e que somos todos de certa forma influenciados pelo movimento do todo. 
Acredito nas características atribuídas aos planetas e a ligação às representações mitológicas. 
Amo mitologia grego-romana, base da nossa filosofia. 
Sei que ao fim de trocar três palavras com alguém acabado de conhecer, a quarta palavra faz parte da pergunta - quando é que fazes anos? Há qualquer coisa neste cérebro analítico, com uma lógica muito própria que decide que saber a data de nascimento de alguém funciona como uma espécie de filtro que reduz ao essencial o que preciso para continuar uma conversa. Isto deve vir da lua em virgem. As afinidades iniciais dão-me algum conforto. Não me movo por titulos, ou estatutos, interessam-me é verdades subtis e linguagens de fácil assimilação. Identificar o signo solar é para mim uma espécie de raio x de quebra gelo. Uma mania de tantas outras que tenho como as três almofadas na cama, duas para a cabeça e uma para as pernas ( paranóia extra pós gravidez ) para adormecer em silêncio, com alguma escuridão (de preferência fora de um auditório, durante um concerto, sentada na terceira fila a contar do palco - private joke) e conseguir despertar com um som agradável, delicado, que me arranque devagarinho dos sonhos, a lembrar-me que a música faz o acordar valer a pena. 
Será do ascendente em aquário?
Estas são só as manias do quarto, mais vale nem dispersar muito pelas outras divisões da casa (nem do mundo). 
A comunicação é definitivamente um enorme factor de divisão entre pessoas e em momentos de mercúrio retrógrado somos postos à prova, como se já nos entendessemos todos muito bem fora destes contextos...
Será que o propósito da humanidade é a compreensão? Estamos a anos luz! 
Já não nos bastava uns virmos de Vénus e outros de Marte, também tinha de vir o Mercúrio desnorteado empurrar-nos para a Babilónia? 
É melhor comunicar sem palavras até lá para Junho...

terça-feira, 10 de maio de 2022

Sentido

Há muitas coisas que não sabes sobre mim. Está bem, algumas nem eu as descobri e outras nem sei se ainda as tenho. 
Lembras-te de te ter contado que quando me sinto muito feliz, fico ansiosa? 
Percebi que se não é da adrenalina, é de sentir o coração a ficar tão cheio que parece que me rebenta no peito. Pode ser medo de o insuflar de tal maneira que me desnorteio e fico sem saber para onde vou, se levantar vôo. Às vezes preciso de vislumbrar a rota...
É um cenário muito idêntico quando me zango, só que aí, em vez do medo de voar é o medo de me sentir presa. E tudo isso se passa só de mim para mim...
Sou feliz a fazer comida, mas isso tu já sabes.
Quando faço bolos, os ovos são sempre em número impar. Também nas ervas que misturo para o chá, nas preces e até nos espirros. 
Não sei se te contei que nunca faço sopa sem nabo, passo a vida a dizer que os nabos não são nada insultuosos - como no adjectivo às pessoas - servem para mediar os outros legumes da panela.  
Não me perguntes onde desencantei esta teoria, mas é mais uma daquelas que ninguém me tira da cabeça nem da sopa. Sei que é um detalhe irrelevante para ti que não queres saber da mecânica, desde que o carro ande.
Quando me sinto invadida tenho tendência para fugir para garantir que não me tiram nenhum pedaço. Se calhar acredito que as minhas inseguranças são preciosas. Custa-me sentir que desaponto alguém, ainda assim. Estou a trabalhar nisso.
Gosto de pessoas, mas muito, só de algumas. 
Não me sinto confortável no meio de multidões. Isto também tem evoluído com a idade. Já me disperso que chegue sozinha.
Se me levanto durante a noite nunca acendo as luzes, faço tudo na penumbra e gosto muito da sensação de ver no escuro. 
Há anos que acredito que vou fazer alguma coisa para ajudar a mudar o mundo. A miopia a crescer tem ajudado a encolher essas expectativas. 
Não gosto de bolos quentes nem de sopas frias. 
Acredito mesmo que o amor cura e quando digo isto é literalmente. Há quem pense que é doença...
Tenho uma enorme tendência para achar que sei tudo sobre a vida e só quando me perco percebo que ainda não sei nada. Ou pior, sei algumas coisas, mas não as ponho em prática. Tem dias, talvez. Perco-me com frequência. Encontro-me com facilidade. 
Também acreditei durante muito tempo que sou tão forte e tão resistente que nada me perfura o coração, vicissitudes de quem nasce com maior propensão para ver o lado mais luminoso, mas altamente perigoso se ignorares as sombras. As tuas, acima de tudo. 
Julgo que sabes que a minha aptidão para puxar para o humor, pode ser para desviar de assuntos que levo mesmo a sério. Meus. Só meus. Daqueles que tento fingir que não existem. Revelam-se sem eu querer e fecho-me durante um bocadinho. Com eles.
Às vezes zango-me comigo por não praticar o que prego. Sei que sou boa a pregar sem martelo, mas péssima a concluir tarefas. Prefiro principios e meios a fins. 
Tenho um imenso gozo ao sentir que faço a diferença na vida das pessoas. Que  acrescento. Isso e viajar. Também gosto de escrever, mas fico sempre a duvidar se o farei como deve ser. Quando na verdade "o que deve ser" até raramente me faz sentido. E isso, de mim - além da música, os pássaros e outros bichos, as árvores, os abraços, os vestidos, o mar, os livros, a fé, e esse canto ergonómico no teu peito - tu tens a certeza, de certeza - tem que fazer sentido. 

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Reset

Nasci com o rabo voltado para a lua. 
Mesmo ao fim de quase uma semana de xarope para a humildade e convicções abanadas - do mal, tenho sempre o menos.
Sim, vou continuar a ver o melhor em tudo. 
Mas, se calhar o melhor é falar baixinho que aprendi a custo sussurrado que grandes lições vêm do silêncio e de sonos profundos. 
Cinco dias sem café. 
Abençoada cevada que reconforta e desperta sem acelerar a pulsação. 
Aprendi uma coisa nova - é toda uma redescoberta uma rotina sem cafeína. 
Vou ter que chegar a um acordo com o meu bioritmo pois se calhar sou mais tranquila do que pensava. Três bocejos seguidos e duas valentes espreguiçadelas depois, o sol brilha e cheira a primavera e a novo dia.
Vamos ao que interessa que é para inverter o sentido - o jasmim que a Laurentina me ofereceu está florido. A amizade que perdura e perfuma por muito que passe o tempo.
A glicinia que insisto em levar de casa em casa há anos, é mais persistente que eu - isto sim, é de valor -  e as suas raízes profundamente decididas rebentaram finalmente um festim de folhas primaveris, depois de um pseudo inverno de aparentes hesitações em que demos tudo por perdido. 
Afinal, parar não é morrer. 
Sigo o exemplo da flora resiliente do meu pequeno habitat e arrumo duas das quatro gavetas a que me propus ao som da nova lista de canções escolhidas a dedo de amor.
Fiz uma sopa poção mágica, um chá de ervas espanta males e aproveitei para espantar também todos os pensamentos que não me acrescentam. 
A natureza ensina-nos sempre tudo o que precisamos saber quando paramos para ouvir. Eu se fosse uma flor seria uma glicinia, a superar qualquer obstáculo com grande estilo. 

domingo, 13 de março de 2022

Nó cego.

Não sei se é a vida ou a idade. 
A cronologia só me interessa para não chegar atrasada aos compromissos ou para ter dias específicos para celebrar a rigor, mas ultimamente é mais frequente analisar o habitat para compreender até que ponto o meu desenvolvimento flui de acordo com os sonhos. Introspecção para expansão. 
O tempo, cada vez mais precioso e escasso,
tem dias de análise com direito a celebração. Datas queridas. 
Já são quase todos os dedos das mãos e dos pés, de memórias, olhares e colos de mãe. 
Não é descritível - mesmo com uma imensa noção espacial do cenário no dia, a intensidade da luz e todos os cheiros familiares adocicados no ar - a primeira troca de olhar. O amor à primeira vista. 
Diz-se até que a visão é o sentido menos desenvolvido à nascença e que os bebés vêem tão bem quanto as toupeiras, mas tenho a certeza que naquele momento, ambos vimos o essencial e dissemos tudo o que era preciso nesse abraço iniciante. 
As memórias são estranhas e muito autónomas, não sei bem se teremos alguma capacidade de decisão em relação ao que esquecemos e ao que fica presente em nós como pele que nunca é renovada, mas sei que há detalhes que tenho arquivados algures, como se a minha vida fosse um longo livro escrito em papel com cheiro de jasmim e com um índice de todos os olhares que guardo. O da minha mãe no beijo de boa noite, o do meu pai quando cantava. Os dos meus filhos e de tantos amores que foram ficando meus.
Coleciono-os porque sei que cada um deles transforma o meu olhar numa expressão diferenciada do mesmo amor que dispensa encontrar adjectivos específicos. Todas as pessoas da minha vida me dão um olhar diferente. 
Há quem diga que o pôr de sol é sempre igual mas eu tenho a certeza que não. 


Desafinada

"Ressonância é o fenômeno em que um sistema vibratório ou força externa conduz outro sistema a oscilar com maior amplitude em frequênci...