Quase oito da noite e ainda é dia!!
Sinto um alívio que cresce com os dias na primavera. O horário de inverno pesa e cansa. Parece que há em mim toda uma natureza que precisa de luz para funcionar em pleno. Assim que começa a escurecer só me apetece parar, fechar e recolher como se fosse uma planta depois da fotossíntese.
Hoje não vai dar, é dia de dança.
Amo dançar, desde menina, nos tempos em que sonhava transformar-me numa Isadora Duncan, sem o final trágico, claro.
Também dispensava o Bugatti, bastava-me a elegância do movimento, a simetria compassada entre corpo e ritmo e a postura firme sem rigidez.
Mesmo com esta devoção ao bailado, há todo um processo instigado pela preguiça ou pelo cansaço: o corpo começa a reclamar ainda de véspera e a mente vai orquestrando desculpas até pertinho da hora. Tenho um jeito para me boicotar!
- Não levarás a melhor, desta vez - decido determinada - Eu é que mando em ti, coisa que vive em mim e insiste que tenha uma programação que não é minha.
Pareço uma maluquinha nestes dias de consciência mais presente, plenos de diálogos internos numa batalha existencial entre o que sou e o que manifesto.
Depois de tantos livros lidos e alguns ainda por ler, tão cheios de páginas como de intenções, numa demanda pelo autoconhecimento, milhares de conselhos lúcidos, mas só para os outros, sobra-me um monte de teoria quase nunca posta em prática. Tanta parra e tão pouca uva...
Não estou em modo Calimero, atenção, só reconheço as fases de mais folhas que frutos. Não pode ser só abundância, que o solo precisa de descanso, às vezes.
A minha irmã Ana quando me lê diz que me perco tanto nas metáforas que devo pensar que toda a gente está dentro da minha cabeça a compreender o raciocínio que a mim me parece tão óbvio.
-Não importa, querida mana, que faça sentido a quem tiver de fazer, digo-lhe.
Que doce me sabe, este desprendimento...
Deve ser a lua cheia que vem numa de transbordar copos, para que saia tudo o que está a mais, em jeito de " acorda e cheira o café ". Algures no tempo não dá para adiar mais a percepção de realidade alterada. A seguir, vem a dificuldade em perceber como se lida com esse novo olhar. Ou se calhar não vem, sou só eu que complico, tenho alguma tendência para pincelar complexidades no que é aparentemente simples ou básico.
- Desculpas, claro.
Em minha defesa, deve depender da perspectiva, mas é um facto que às vezes todos estes monólogos são demasiado cansativos. A necessidade de questionar e procurar explicações para tudo é muito mais exaustiva que o horário de inverno e eu até já devia ter passado da fase dos porquês para a fase do - é o que é! Bolas!