terça-feira, 27 de abril de 2021

Pliés & Relevés

Quase oito da noite e ainda é dia!! 
Sinto um alívio que cresce com os dias na primavera. O horário de inverno pesa e cansa. Parece que há em mim toda uma natureza que precisa de luz para funcionar em pleno. Assim que começa a escurecer só me apetece parar, fechar e recolher como se fosse uma planta depois da fotossíntese. 
Hoje não vai dar, é dia de dança. 
Amo dançar, desde menina, nos tempos em que sonhava transformar-me numa Isadora Duncan, sem o final trágico, claro.
Também dispensava o Bugatti, bastava-me a elegância do movimento, a simetria  compassada entre corpo e ritmo e a postura firme sem rigidez.
Mesmo com esta devoção ao bailado, há todo um processo instigado pela preguiça ou pelo cansaço: o corpo começa a reclamar ainda de véspera e a mente vai orquestrando desculpas até pertinho da hora. Tenho um jeito para me boicotar!
- Não levarás a melhor, desta vez - decido determinada - Eu é que mando em ti, coisa que vive em mim e insiste que tenha uma programação que não é minha. 
Pareço uma maluquinha nestes dias de consciência mais presente, plenos de diálogos internos numa batalha existencial entre o que sou e o que manifesto. 
Depois de tantos livros lidos e alguns ainda por ler, tão cheios de páginas como de intenções, numa demanda pelo autoconhecimento, milhares de conselhos lúcidos, mas só para os outros, sobra-me um  monte de teoria quase nunca posta em prática. Tanta parra e tão pouca uva... 
Não estou em modo Calimero, atenção, só reconheço as fases de mais folhas que frutos. Não pode ser só abundância, que o solo precisa de descanso, às vezes. 
A minha irmã Ana quando me lê diz que me perco tanto nas metáforas que devo pensar que toda a gente está dentro da minha cabeça a compreender o raciocínio que a mim me parece tão óbvio. 
-Não importa, querida mana, que faça sentido a quem tiver de fazer, digo-lhe.
Que doce me sabe, este desprendimento...
Deve ser a lua cheia que vem numa de transbordar copos, para que saia tudo o que está a mais, em jeito de " acorda e cheira o café ". Algures no tempo não dá para adiar mais a percepção de realidade alterada. A seguir, vem a dificuldade em perceber como se lida com esse novo olhar. Ou se calhar não vem, sou só eu que complico, tenho alguma tendência para pincelar complexidades no que é aparentemente simples ou básico. 
- Desculpas, claro. 
Em minha defesa, deve depender da perspectiva, mas é um facto que às vezes todos estes monólogos são demasiado cansativos. A necessidade de questionar e procurar explicações para tudo é muito mais exaustiva que o horário de inverno e eu até já devia ter passado da fase dos porquês para a fase do - é o que é! Bolas! 
Ainda bem que os livros me ensinaram pelo menos o que parece que esqueço todos os dias mas que está lá, naquele cantinho semi desperto que me arrasta para a aula de dança -  quando deixamos de fazer perguntas, todas as respostas se revelam. 

domingo, 25 de abril de 2021

Reflexo

Dia de resoluções é quando o homem quiser, decido ao olhar para o espelho e percebo que preciso perder peso. 
Liberdade é de certeza o mais leve dos sentimentos.
Quilos de memórias, frustrações, expectativas e promessas por cumprir no reflexo. Tudo de mim para mim. 
Tinha prometido as caminhadas matinais diárias, manter-me fiel às rotinas transformadoras, não me baldar às aulas de dança quando o cansaço me pede para ceder. Tinha acordado que não ia querer mais saber do que estava para trás, porque conheço a realidade do agora. Comprometi-me a transformar o meu agora na coisa bonita que merece ser vivida e saboreada sem pressa para não a sentir a frustração do que queria para o futuro. Sem medo. Eu sei que o futuro não existe. O futuro é só o presente daqui a pouco. Quando chegar e quando chega.
Volto a olhar com mais atenção e demoro-me mais um pouco desta vez. Sorrio para as contradições que vejo logo abaixo dos vincos de expressão. Faço uma festa na zona do abdominal saliente do pós parto e lembro a agitação do plexo solar sempre que tento ignorar as dores só para me esquecer que também sofro e que não preciso ser forte e resistente todos os dias. Fixo o olhar que me diz que sou aquilo tudo que sinto, mesmo que por vezes me esqueça e desvalorize na ansiedade de não corresponder ao que esperam que seja. 
O aroma a bolo quase cozido no ar desperta-me e proporciona-me a verdadeira epifania que transmite todo o significado do dia:
 - Para mim, a cozinha é como a vida - frase que uso exaustivamente, neste paradoxo que vivo. 
 Sempre que cozinho, a não ser que por encomenda, nunca confirmo antes os ingredientes que tenho. A minha cozinha não precisa de listas da dispensa nem de receitas. Claro que há coisas que são essenciais e outras que não entram sequer aqui, mas dentro desses limites vale toda a criatividade da escolha no momento. 
Eu faço bolos sem açúcar, manteiga ou ovos!!! Não me preocupam nunca as regras, as medidas ou os modos de preceito.
É no improviso e na criatividade que sou realmente confiante e corajosa. 
Não me assusta o que está ou não do outro lado da porta da dispensa. Sei que vai sempre correr bem. 
Provo o bolo de laranja e reparo como me sinto mais leve na liberdade de ser o que sou. 

sábado, 10 de abril de 2021

Essência

É totalmente despropositado todo o conceito de regressar. 
Devia ser - ir outra vez a um sítio que já não é o que era.
- Regresso, do latim regressus:
1. Voltar, tornar ao ponto de partida. 
2. Fazer voltar.
Quantas palavras de todo um léxico de vida nos terão induzido em erro até hoje?  
Não é preciso divagar excessivamente para validar o que quero dizer. Validação exterior é o total paradoxo neste texto, mas adiante. Basta pesquisar amor, por exemplo - tem todas as definições possíveis e imagináveis - que é uma emoção, ou paixão e tal, uma afectividade e por aí fora e até podia dizer que é o fogo que arde sem se ver ou que afinal é cego e surdo ou mudo. 
Eu também não sei dizer o que é. Aposto que se escrevesse dicionários as pessoas iam ficar ainda mais confusas que já estão.
Do sítio onde sou basta-me saber que a minha definição de amor inclui palavras como - inteiro, infinito, imensurável e intemporal. Não é sobre relações, emoções, nem laços óbvios como os familiares, em que sentimos naturalmente o afecto pelos nossos. Se bem que natural também se inclui na minha ideia de amor.
Disseram-nos que existem definições específicas e como é assim que está escrito, é assim que se deve viver. - No início era o verbo. 
Fizeram-nos acreditar que é necessário todo um rol de esforços e expectativas para darmos e recebermos o que à partida sempre esteve em nós. Não é preciso adaptar-mo-nos, moldar-mo-nos, nem efectuar uma série de malabarismos dignos de arena de circo para encaixar em todo um conceito socialmente adulterado para podermos merecer o que é nosso por direito. Algures, vivemos o papel da mãe e esposa e certinha, porque é assim que deve ser, de preferência com a verdadeira essência constrangida para não se estragar nada, além do nosso próprio som. 
Mas alguém nos pediu isso? Onde fomos realmente buscar a ideia que é preciso ser alguma coisa além do amor próprio? 
O batimento único da melhor versão de nós,  dispensa qualquer tipo de afinação.
Quem nos disse que é egoismo não querer abdicar da nossa essência luminosa para nos ajustarmos numa caixa dois ou três tamanhos abaixo? Ou a cima - é indiferente a direcção. 
O amor não é o que nós achávamos que era. O amor não se divide em subcategorias ou tipos. O amor é autenticidade. É em circunstância alguma deixarmos de ouvir o nosso coração para merecermos o que já somos. O amor somos nós. 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Nós e laços.

Podia falar de glicínias, tenho uma história que começa assim, com esse aroma - tão intenso - que mesmo depois das flores caírem, os cachos ficarem despidos e no outono restarem apenas os ramos do tronco em contorção firme e espontânea, abraçados ao que sentem que os leva na direcção da luz, o perfume permanece em espera serena até que a primavera compreenda que é preciso voltar. 
Se este momento presente fosse noutra estação do ano, hoje teria sido primavera, ainda assim. Pela glicínia e pelos laços que resistem ao tempo e à distância. 
Por vezes passamos pelos sítios e trazemos recordações, eu gosto de trazer pedras, ramos ou folhas de algumas árvores e às vezes pessoas. Algumas, ficam-me no coração em formato de raízes que também se enrolam à volta e me vão fazendo florir momentos, mesmo ao longe, como uma presença constante, aconchegante e luminosa. As pessoas primavera, que tenho polonizado por este mundo fora, representam para mim o mesmo que a estação dos recomeços, uma energia muito forte e intensa, típica de novas etapas, em jeito de gerador sustentável e inesgotável, que nos torna capazes para quase tudo com um sorriso na cara. 
E mesmo com mais vontade de acarinhar continuações, que de me dedicar a novos começos, não quero saltar etapas, nem perder este aroma, tão promissor no ar.

sábado, 3 de abril de 2021

Pandora

O horóscopo de hoje diz para descontrair e  tentar não controlar os acontecimentos.
É uma notificação que recebo de uma App que insiste em acordar-me para a vida com esta sabedoria intemporal. 
Mesmo quando não leio a mensagem no dia, acaba por ser útil noutra altura qualquer, por isso deixo-a ficar.  
A previsão para hoje, por exemplo, é daquelas que me dá jeito ler todos os dias e às vezes muitas vezes ao dia, confesso. 
Basta distrair-me um bocadinho da demanda da evolução pessoal e lá estou eu outra vez a tentar armar-me em arquitecta do meu universo.
De onde nos virá o impulso para avançar quando o caminho é acidentado e todos os sinais estão aparentemente amarelos, a cair para vermelho? 
Será o optimismo uma espécie de dissonância cognitiva? O cérebro daltonico a querer convencer-nos que a nossa intuição sofre de caquexia, basicamente.
-Ah, aquele amarelo é mesmo muito verde.
Ou há percursos que sabemos que têm de ser caminhados mesmo com a certeza que nos vamos esfolar e se calhar partir qualquer coisinha? 
Teremos um gps masoquista para aprendizagens incontornáveis que volta e meia nos vira o norte quando estávamos de malas feitas para oeste - porque é mesmo preciso passar por lá? 
A confiança em excesso pode ser letal mas obriga-nos a seguir em frente. 
A insegurança e a hesitação podem ser um género de disfarce que nos leva acreditar no desenlace espontâneo dos acontecimentos, sem que tenhamos que tomar decisões, mas de uma forma ou outra, no fim acabamos sempre por chegar onde era suposto.
Se não chegarmos, é porque não é o fim. 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Passagem

Fiz um bolo de chocolate enfeitado com morangos para celebrar a chegada de Abril que traz todo um pronuncio de vida nova. Também trouxe uma chuvinha de manhã, mas foi de pouca dura, porque as boas notícias, as hormonas ou a sorte de principiante do mês chamaram-me o sol de volta. Sempre adorei celebrações e datas especiais. Celebrar, lembra que a vida vale mesmo a pena, mesmo quando somos obrigados a festejar ao longe. 
A época pede uma redenção transformadora, mas tenho a sensação que estamos desde a última páscoa à espera do milagre que nos vai despertar do sono. Dormir é bom. Permite-nos manter uma espécie de bolha anestésica que nos dá uma falsa sensação de protecção mesmo que seja apenas de nós mesmos. Há conforto aparente num sossego estático e se ficarmos mesmo quietinhos e não mudarmos de posição achamos que conseguimos manter-nos no controle da vida. Mas a vida não é sobre nós, ou melhor, é, mas sobre o que somos quando deixamos que ela aconteça sem medo de nos movimentarmos para não rebentar a bolha. 
Páscoa é reconciliação com o que está dentro e fora.
É sair do casulo de energia divina concentrada e permitir que o estado de consciência, o do amor puro, faça a sua parte para curar o todo. 
Páscoa é a consciência que não estamos sós e a trégua que nos responsabiliza com o resto do mundo. 

Desafinada

"Ressonância é o fenômeno em que um sistema vibratório ou força externa conduz outro sistema a oscilar com maior amplitude em frequênci...