O outono está vestido de inverno e tenho frio. Apanhei uma molha gigante a caminho da lavandaria e apetece-me reclamar do chão escorregadio, da roupa humida até aos ossos e de mais umas coisas, para aproveitar o embalo. Deve ser das hormonas.
Tento mudar o foco. A água é uma bênção, mesmo quando nos cai do céu e ensopa as toalhas de banho esquecidas no estendal ou a alma que também precisa de sol em dias mais nublados.
Sento-me à espera a olhar para a máquina de lavar às voltas. Pego no telefone. Pelo menos aqui há wifi, não vá eu perder alguma coisa daquilo que se passa de relevante no mundo, sem net em casa há 4 dias. Salto as notícias das inundações por todo o lado. Okay, a chuva faz falta, mas não é preciso exagerar... Abro o insta, essa biblia essencial à minha futilidade quando me apetece não querer saber de mais nada.
Como é que hoje em dia, mulheres que acabam de parir conseguem ficar com ar de quem sai de um retiro de yoga com 3 dias de spa, liftings, maquilhagem, unhas e cabeleireiro, camisas de noite de linho ou seda da Zara Home e criancinhas tão cor de rosa e fofinhas que parecem nenucos perfumados? Isto existe mesmo?
Eu nem me lembro o que enfiei na mala para vestir quando fui parir o primeiro, alguém tem tempo para pensar nisso? Sei que quando foi do segundo, porque há fotos do mais velho enternecido a olhar para o bebé acabado de nascer ao meu colo, tenho uma camisa de noite da Mothercare, de algodão cor de rosa, super largueirona e pirosa, provavelmente manchada de leite, a tresandar maternidade e falta de sexyness, o cabelo todo desgrenhado e o ar corado e embevecido de quem demorou 9 meses a escalar o pico do Evarest para dar à luz o que pareceu naquele momento um pedaço da enorme montanha.
As minhas crias, as mais bonitas do mundo, no dia do nascimento e para todo o sempre, vinham todas enrugadas, quase roxas e com umas trunfas de fazer inveja a muitos adultos sem grandes problemas de calvice.
Será este momento fotográfico mais ou menos instagramável determinante para o futuro sucesso e prosperidade das famílias, jamais saberei. Acabei de entrar na pré menopausa e de descobrir que presentemente os meus maiores prazeres diários são coisas tão fáceis e simples como desapertar o soutien, despir a roupa e cair na cama como se não houvesse amanhã. Sem camisas de noite pirosas, é certo. Mesmo quando estou sozinha. Isto faz-me esboçar um sorriso que estava a teimar ficar escondido hoje. Reservo-me ao direito de também ter dias de chuva como as nuvens. Sem me esquecer de me sentir grata!
Ontem passei o dia a sorrir e de coração cheio por ter recebido um gesto de bondade de um desconhecido, hoje já me esqueci, a culpa é do estrogénio que parece que acentua as alterações de humor. Prometo melhorar, ainda assim. São hormonas, mas são as minhas, merecem o melhor.
Sim, ontem até me vieram as lágrimas aos olhos:
-Vou ajudá-la porque acho que temos que ser uns para os outros.
Que raio nos terá acontecido para chegarmos ao estado em que a bondade humana nos apanha tão desprevenidos ao ponto de nos comover? Normalizámos tanto a indiferença e a individualidade que um gesto inesperado, nos atinge como um murro no estômago dos que não doem? Estranhamos o que é realmente bom?
A chuva também é!