Chegaste apressado num 2021 digno de guiness book das emoções fortes.
Se eu fosse de mármore, este ano teria sido um belo cinzel a esculpir qualquer coisa que espero que se transforme numa bela peça renascentista de curvas polidas e luminosas, cheias de vida.
Acho que não sou só eu que perdi a noção cronológica de há cerca de dois anos para cá, mas não deve ter grande importância, teoricamente o tempo não existe, mesmo que eu não seja uma pedra.
Ainda assim, tenho a sensação de calafrio de uma vida até 2020 e outra agora.
A minha pele existe.
Tem cerca de 17500 dias, algum calor acumulado e um ligeiro cansaço hipodermico. Vicissitudes de renovações celulares constantes sem dar pelo tempo a passar. Desfasamentos de ritmos, que na música até podem resultar, mas na vida, desafinam.
O mundo obrigou-nos a abrandar, mas o calendário não obedeceu.
Faço a árvore de natal para cumprir a tradição. Cuidar da harmonia em casa faz-me sentir em aconchego. As memórias do natal e significados ficaram algures há quarenta anos atrás, com ecos nos primeiros anos dos meus filhos, onde juro que houve momentos em que eu e o pai nos divertimos mais que eles, a anunciar trenós invisíveis de renas voadoras, a escolher criteriosamente as prendas e a encontrar esconderijos perfeitos, não fossem eles duvidar de todo o imaginário que nos entretinhamos a criar para a época, com tal entusiamo que chegámos a festejar a 23 o que o resto do mundo festeja a 24.
Natal é família. Família são todos os dias.
São luzes amareladas e quentes, de preferência sem piscar, que intermitência dá-me ansiedade. São velas de maçã e canela. Bolo rei.
Não me faz sentido nada disto o resto do ano, à excepção das luzes amareladas. Ia fartar-me das frutas cristalizadas e enjoar o aroma de maçã com canela.
A vantagem das tradições e dos dias especiais é a entrega e a dedicação para que tudo fique a preceito. São excepções às regras.
Será que aguentávamos tornar todos os dias especiais? Porque afinal, até são...
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