terça-feira, 10 de maio de 2022

Sentido

Há muitas coisas que não sabes sobre mim. Está bem, algumas nem eu as descobri e outras nem sei se ainda as tenho. 
Lembras-te de te ter contado que quando me sinto muito feliz, fico ansiosa? 
Percebi que se não é da adrenalina, é de sentir o coração a ficar tão cheio que parece que me rebenta no peito. Pode ser medo de o insuflar de tal maneira que me desnorteio e fico sem saber para onde vou, se levantar vôo. Às vezes preciso de vislumbrar a rota...
É um cenário muito idêntico quando me zango, só que aí, em vez do medo de voar é o medo de me sentir presa. E tudo isso se passa só de mim para mim...
Sou feliz a fazer comida, mas isso tu já sabes.
Quando faço bolos, os ovos são sempre em número impar. Também nas ervas que misturo para o chá, nas preces e até nos espirros. 
Não sei se te contei que nunca faço sopa sem nabo, passo a vida a dizer que os nabos não são nada insultuosos - como no adjectivo às pessoas - servem para mediar os outros legumes da panela.  
Não me perguntes onde desencantei esta teoria, mas é mais uma daquelas que ninguém me tira da cabeça nem da sopa. Sei que é um detalhe irrelevante para ti que não queres saber da mecânica, desde que o carro ande.
Quando me sinto invadida tenho tendência para fugir para garantir que não me tiram nenhum pedaço. Se calhar acredito que as minhas inseguranças são preciosas. Custa-me sentir que desaponto alguém, ainda assim. Estou a trabalhar nisso.
Gosto de pessoas, mas muito, só de algumas. 
Não me sinto confortável no meio de multidões. Isto também tem evoluído com a idade. Já me disperso que chegue sozinha.
Se me levanto durante a noite nunca acendo as luzes, faço tudo na penumbra e gosto muito da sensação de ver no escuro. 
Há anos que acredito que vou fazer alguma coisa para ajudar a mudar o mundo. A miopia a crescer tem ajudado a encolher essas expectativas. 
Não gosto de bolos quentes nem de sopas frias. 
Acredito mesmo que o amor cura e quando digo isto é literalmente. Há quem pense que é doença...
Tenho uma enorme tendência para achar que sei tudo sobre a vida e só quando me perco percebo que ainda não sei nada. Ou pior, sei algumas coisas, mas não as ponho em prática. Tem dias, talvez. Perco-me com frequência. Encontro-me com facilidade. 
Também acreditei durante muito tempo que sou tão forte e tão resistente que nada me perfura o coração, vicissitudes de quem nasce com maior propensão para ver o lado mais luminoso, mas altamente perigoso se ignorares as sombras. As tuas, acima de tudo. 
Julgo que sabes que a minha aptidão para puxar para o humor, pode ser para desviar de assuntos que levo mesmo a sério. Meus. Só meus. Daqueles que tento fingir que não existem. Revelam-se sem eu querer e fecho-me durante um bocadinho. Com eles.
Às vezes zango-me comigo por não praticar o que prego. Sei que sou boa a pregar sem martelo, mas péssima a concluir tarefas. Prefiro principios e meios a fins. 
Tenho um imenso gozo ao sentir que faço a diferença na vida das pessoas. Que  acrescento. Isso e viajar. Também gosto de escrever, mas fico sempre a duvidar se o farei como deve ser. Quando na verdade "o que deve ser" até raramente me faz sentido. E isso, de mim - além da música, os pássaros e outros bichos, as árvores, os abraços, os vestidos, o mar, os livros, a fé, e esse canto ergonómico no teu peito - tu tens a certeza, de certeza - tem que fazer sentido. 

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