Virei a cabeceira da cama para a janela. Espero que seja bom para o feng shui, porque é muito prático para mim.
Abro os olhos, espreguiço-me, estico o braço direito e empurro a portada sem mexer o resto do corpo. A luz entra e fico mais uns minutos a apalpar o dia e a despertar devagarinho, acenando um até logo a Morpheus.
Nos dias mais inspirados e se calhar quando entra sol, ouço canções dentro da cabeça e todos os movimentos me parecem uma coreografia em câmera lenta até ao momento de me separar dos lençóis de flanela e vagarosamente colocar um pé no chão frio, enquanto esfrego os olhos e procuro os chinelos. Há um estranho prazer nestas compulsões diárias a que prefiro chamar rituais. Curiosa e paradoxalmente há coisas que me aborrecem de morte se as tiver que fazer sempre da mesma maneira.
Ritual só é rotina se não nos fizer bem, mas ainda assim, às vezes experimento fazer tudo de maneira diferente só para garantir que não me estou a acomodar em excesso nem a enraizar demasiado os hábitos. Tudo em nome da evolução e do desprendimento. Nem sempre é fácil viver nesta pele exigente.
Depois de conseguir lutar contra a gravidade, rendo-me ao meu despertador favorito que me acorda para lhe dar o pequeno almoço, tem dias que ainda antes das sete da manhã. A minha gata que pensa que mia, porque é essa a voz dos gatos, mas por alguma razão que desconheço, fala como uma macaquita que só sossega quando lhe coloco a comida na taça. Salta para a mesa da cozinha e começa a ronronar - isto é em gatês - enquanto abro a lata. Ela é que tem uma grande lata, que a seguir ainda me pede mais, antes de me ocupar o lugar na cama com aquele ar que cumpriu a sua missão diária. Macacar e acordar-me. Às vezes ainda me deito mais um bocadinho, quando ela madruga demais e eu durmo de menos e a quero lembrar que também ocupo território no colchão, como se ela quisesse saber.
É definitivamente um exemplo a seguir a quem ambiciona uma vida simples, como eu. Sim, vida simples, mar, descanso e ar puro. É que este ano, ou é dos astros, ou dos vírus, Nostradamus ou o calendário Maia, o glúten ou a lactose ou se calhar só mesmo as pessoas, mas que há dias em que até o ar parece mais denso, há. Faço as torradas e lembro-me que é preciso desdramatizar. Sento-me no pátio, a gata salta para o meu colo. No telhado em frente está um melro que parece gozar com ela lá de cima.
Bebo um golo de café e olho para a glicínia que precisa de um vaso maior.
Está quase tudo no sítio, até eu.
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