Vesti-me para ir à praça. Estou numa de aproveitar ao máximo o tempo livre e tirar partido desta harmonia que é estar de volta ao lugar que sinto como casa. Peguei na cesta e na lista e fiz-me ao caminho. Quero comprar favas para o jantar. A refeição do fim do dia acompanha um momento precioso a três, eu e os meus filhos, normalmente recheado de conversas e regado de contra argumentações deliciosas que alimentam os meus dias e me dão uma sensação de saciedade ao observar de perto as pessoas que se estão a tornar. Se bem que às vezes fico a pensar se serei uma mãe suficientemente competente por sentir que os meus filhos me ensinam mais da vida do que eu a eles.
Também pode ser desta era. As novas gerações evoluem a uma velocidade tão grande que nos sentimos completamente desfasados do mundo num piscar de olhos, enquanto eles estão atentos. Muito atentos. E também conscientes, que foi uma palavra que só compreendi já depois de ser mãe deles. Os meus filhos sabem lidar com as emoções, eu ainda estou a tirar o curso. Conseguem relativizar e ter uma atitude imparcial. Conseguem elevar-se da cena, observar o cenário e os intervenientes, ver para além do óbvio e cru. Não são criaturas de esbanjar afectos, antes pelo contrário. À primeira vista parecem snobes e desplicentes no trato, mas na verdade são muito empáticos e lúcidos e ao fim de algum tempo, após raio x escrutinador, acabam por revelar a essência empática. Não têm pachorra para conversa fiada. Gostam de boas argumentações, de temas com conteúdo, de questionar conceitos e teorias instituídas, não se ficam, desde pequenitos com um - é assim, porque sim.
De tão envolvida que estou nestes pensamentos adocicados nem reparo na mancha verde fluorescente quase a chegar à praça até uma guarda se atravessar em frente ao meu carro e me fazer sinal para encostar. A mim e a mais uns dez carros...
Devia ter hesitado antes de pensar em ir comprar favas, essa leguminosa diabólica que até foi banida das escolas filosóficas de Atenas, penso eu a disfarçar o nervoso.
-"Bom dia, onde é que a senhora vai?"
Chegámos a isto, a sério? Hoje a conversa ao jantar vai durar até à ceia, se me deixarem chegar à praça entretanto...
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