terça-feira, 1 de junho de 2021

Celebração.

Crescer é inevitável, apesar de por fora ser muito mais evidente. As alterações ao corpo têm vontade própria. Há quem tenha montes de pressa e incentive essa vontade. Eu tive. Quis tanto crescer e ser independente, dona do meu nariz, usar maquilhagem e saltos altos, saias justas e soutiens, quando tivesse o suficiente para os preencher... Fumar e desfilar no palco da vida como se assim mandasse em tudo o que é meu. Celebrar ao máximo a minha condição humana, seduzindo o mundo com o meu desabrochar feminino. 
Cresci em tudo o que havia para crescer com a pressa que me caracteriza - há tanto para viver, não pode haver tempo a perder - como naquele poema que li em tempos 
" A girl who didn't stop". Era eu.
Devia tê-lo lido antes de ter pressa. 
A questão é que por fora, não há outra hipótese. Os ossos vão crescendo, as feições alteram-se, a epiderme transforma-se, o metabolismo oscila, as hormonas descontrolam-se e todos estes trâmites são inevitáveis e impostos, mesmo a quem não sofre de ânsias de ser mais do que é antes de ter que ser.
Já a nível interno, invisível, alguém nota que cresce? Alguém sabe realmente a idade do que não se vê? Devíamos era celebrar dois aniversários de idades distintas!!!
A 16 de dezembro celebro o aniversário do meu corpo, agora com 47 anos, mas noutro dia qualquer que escolherei a dedo, quando me fizer mesmo sentido, passo a celebrar a idade com que realmente me sinto e que asseguro que na maior parte dos dias não é mais que 17. 
Duas celebrações anuais pela vida!!
E com uma enorme vantagem - na festa de celebração da idade interior o número de velas altera-se a outro ritmo. 
Nós é que escolhemos. Por exemplo, há já alguns anos que me sinto com 17, mas, provavelmente um dia destes, depois de um qualquer tropeço na vida do corpo, perceberei que já não me ergo com a mesma velocidade e que voltarei a andar com um bocadinho mais de atenção. 
Aí, é natural que me sinta já com uns 20 e poucos. De certeza que tive uns empurrões até aqui para me sentir agora com os 17 que deviam ser uns 13 há meia dúzia de anos atrás. 
Com sorte, até aos 95 quando finalmente viver tudo o que há para viver neste plano, acertarei o compasso e no dia 16 de Dezembro de 2068 celebrarei em simultâneo a idade do corpo e da alma. 

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