Há noites em que apenas se ouve o som do batimento cardíaco em total afinação.
Há outros ruídos de fundo, é certo que o mundo nunca sossega, mas não quero saber deles.
Carrego no botão mudo e ouço apenas o essencial. Outros valores se levantam.
O silêncio é de ouro, quando faz sentido.
Como tudo o que faz parte, esse som tem uma canção.
Essa letra conta uma história.
A história leva a um rio.
Escolho o Safarujo que desagua com a proteção e benção do meu Santo padroeiro, o temerário Lourenço.
O céu está meio encoberto e a lua escondida algures.
O eclipse da semana passada trouxe sombra. Quando há sombra, a luz fica mais intensa e ilumina qualquer canto adormecido que se predisponha a despertar.
Quando há predisposições ou descidas, todos os santos ajudam, é do senso comum.
No silêncio da noite há uma ponte.
Ouço o coração e o mar ao fundo.
No rio, junto à foz, as rãs numa orquestra de coachares que parecem ditar o guião com a extrema sabedoria que só a natureza tem. O cenário tem tudo.
Atravesso para o outro lado.
Na ponte, os passos são seguros, ainda que sintam as oscilações do piso. Devagar.
À medida que avanço para a outra margem recordo o caminho que vou deixando para trás, paro e respiro o ar fresco da noite. Há uma inspiração.
Olho para baixo, para o Safarujo que flui serenamente com a confiança de quem sabe exactamente porque e para onde vai.
Vejo o mar que avança na mesma direcção e também reconhece o seu papel.
Selamos o ritual. Sou como um rio.
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