Acordei com o som metálico da chuva a cair devagarinho na mesa do pátio.
Chuva em dia de folga não era bem o que tinha planeado, preciso de praia, mas na verdade estou quase com um mestrado em alterações súbitas de rota e isso dá-me alguma descontração nas contrariedades.
- Está bem vida, sendo assim, volto-me para o outro lado, puxo a colcha para cima e vou saborear uma das melodias que prefiro no universo, sem que isso me altere os humores. Chuva.
Cai miudinha, em ritmo lento e sem vontade de se demorar, mas fica o suficiente para me embalar e deixar no ar o cheiro delicioso da terra molhada que sai dos canteiros.
Quando me decido a levantar e aproveitar o dia, mesmo que abdique da toalha estendida na areia, já a sinfonia pluviosa tinha silenciado.
Chego à cozinha, meio aos tropeços, com algum cansaço acumulado de corpo e de alma em reajuste a pontos cardeais - ah, pois é, não mata, mas mói - às tantas era melhor prolongar a preguiça...
Olho à volta, com a barriga meio a roncar e pego num pêssego rosa, antes que comece a pensar no que não me acrescenta - hábito comum em dias de descanso.
Dou uma trinca, e numa de impedir que os pés me fujam para a cama ainda morna outra vez, tomo a brilhante decisão de virar a casa toda de pernas para o ar.
Algum botão na minha mente, provavelmente da constelação de Vesta achou que o ideal para um dia de folga, seria limpar e redecorar a minha pequena casa.
Percebi, porque gosto de perceber as coisas que são minhas, que para cada estado de espirito tenho uma acção padrão.
Se estou melancólica, triste ou confusa procuro recolhimento e mar.
Bosque.
Às vezes colos das pessoas que amo.
Música, sempre.
Uma qualquer lista com canções para introspecção, muito pessoal e intransmissível, pois claro.
Já se estou feliz da vida, deixem-me exteriorizar.
Rir e dar abraços, partilhar, contagiar, contaminar. Dançar, pintar, criar.
Se me sinto equânime, estou pronta para tudo, o melhor é cozinhar. Estado perfeito para fazer acontecer. Sintonia, sinfonia. Equilíbrio.
Mas, se num dia de folga, a fada do lar radical brota em mim, é certo que o estado de espirito é de revolução.
É sair da frente, senhoras e senhores.
A casa fica num brinquinho, limpa e redecorada, a alma então nem se fala.
O pior é o corpo, que paga. E a folga que voa.
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