Se eu fosse um bicho seria definitivamente um pássaro da madrugada. Sou feliz no sossego das manhãs. Com pouca gente na rua, com muito espaço à volta.
Sou feliz a passear de cesta na praça e a comprar os legumes aos pequenos produtores locais.
A cheirar a fruta feia e descalibrada, a admirar as texturas e formas que transformo noutros sabores.
A fazer bolos sem açúcares refinados e a escolher a dedo os ovos, certificando-me que as galinhas são tão felizes quanto eu a bater claras em castelo ou a picar alperces secos com amêndoas.
A descobrir músicas novas e a ouvi-las até as absorver a nível celular, como se fosse um conjunto autónomo de pautas, sons e instrumentos. Também me agrada a solitude da praia vazia, do mar em intervalo dos veraneantes, ainda que o sol às vezes tenha tanta vontade de se esconder quanto eu.
Em Agosto, sobretudo.
Gosto de pessoas que lutam por uma causa, que se apaixonam por projectos inovadores, que defendem bens comuns, que não esquecem que somos parte de um todo.
Gosto de cães, da devoção com que se entregam aos humanos, da tranquilidade com que reposam aos nossos pés.
Do olhar leal e incondicional até ao último sopro. Da alegria e entusiasmo invejável com que nos recebem diariamente.
Da independência e displicência dos gatos, sobretudo da minha, a preta que me segue para todo o lado e insiste em beber água corrente da torneira do bidé, sempre que chego a casa.
Amo o som dos pássaros que me acordam pela manhã e fazem ritmo com o som das ondas que vem lá do fundo. Preciso de livros, de sentir que aprendo coisas novas, que dou o meu melhor e que faço o que é preciso ser feito.
Gosto de cuidar e de ser cuidada, mas com largueza que me chegue para respirar fundo, de chegar a horas, de improvisar, de surpresas boas, de histórias simples que me comovem e fazem chorar ou até rir de emoção, de rituais, de códigos de honra, de pactos de sangue, de promessas cumpridas, de pessoas que encontram soluções e não desistem perante as dificuldades dos desafios.
Gosto do milagre das ervas aromáticas, de chá e de mezinhas, de poesia e lendas que têm sempre um fundo de realidade.
De coisas só de mulheres, de caminhadas em caminhos por descobrir, de árvores, de desbravar percursos e de pessoas bravas, mas autênticas, cruas e agri-doces, para equilibrar. De gentileza e suavidade. De entrega com fé. Risos estridentes. Susurros meigos.
Preciso de simetrias, de abraços apertados, de braços arregaçados, de sorrisos de esperança e olhos de coragem. Mãos grandes e fortes.
De homens que choram, de pessoas que não se importam com o género, que usam vestidos de noite durante o dia, de almas intensas, de corações abertos, de olhos fechados quando me sento na areia a receber os últimos raios de sol.
Gosto da vida. Gosto de quem vê o lado positivo das situações, de velas, estrelas e de faróis. De dançar, de escrever, de inspirar e de adormecer com a leveza de um coração grato.
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