Os anos vão passando e eu continuo sem saber lidar com a saudade. Esta mente excessivamente marciana pede solução para todos os problemas. Há problemas que a única solução é aceitar que nunca se vão resolver. Se calhar o que não tem solução não é sequer um problema. Se não for um problema, fica mais fácil.
A verdade é que há coisas que nunca passam. Agarram-se à nossa hipoderme, bem lá no fundo, onde não há esfoliante que chegue e aprender a viver com as células mais pesadas é todo um processo.
No início não foi sobre mim, mas como conseguir aguentar o barco que levava toda a gente que parecia não saber nadar. Quando as águas ficam demasiado agitadas o nosso instinto de sobrevivência leva-nos a esbracejar como se não houvesse amanhã, afinal tínhamos acabado de ser confrontados com essa dura realidade.
-Às vezes não há amanhã. Foi assim que vivi essa tempestade que nunca trouxe bonança e insiste em permanecer nas memórias em jeito de lembrete dissolvido numa missão muito específica - hoje, pode ser sempre o último dia.
Entretanto, começou a ser sobre mim. Já me permito a distanciar-me dos outros e a aprender a flutuar. Aceitar a água, as tempestades, a hipótese de me faltar o ar quando a corrente é demasiado forte, sem medo de ir ao fundo. Como se lida com a saudade que não se consegue resolver? Faço uma homenagem, acendo uma vela, cozinho favas e fico atenta a todos os melros que me trazem mensagens. Escrevo cartas como se recebesse respostas de volta. Tento pacificar o meu coração, consciente de que - como diz alguém que conheço - temos dias BC, umas vezes para baixo outras vezes para cima.
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