Não é bem como a lei de Murphy.
Aqui, acho, é mais aceitar que há sempre sombras, mesmo quando a luz é muito intensa, inebriante e tão viciante que só queríamos que fosse para sempre assim.
Não é. Não pode ser. É quase como um equilíbrio que certamente dispensávamos, mas que é necessário à coesão do todo, além dos nossos umbigos.
Não há nada de espectacular em pedaços despedaçados de partes de nós, eu sei, nem mesmo a maravilhosa técnica do kintsugi, a perfeita imperfeição, nos deixa vislumbrar a beleza dos nossos cacos.
O que nos faz sentido é tudo inteiro e perfeito perfeito, e de preferência no sítio que nós escolhemos e enquanto nós quisermos.
Não há beleza em cacos, mas há tanta leveza em aceitar que as coisas se partem. Tanta poesia no desprender ou no tentar colar, deixar ainda mais bonito e resistente que alguma vez foi. É preciso reparar as brechas com entusiasmo, cuidar do que se parte com carinho. Honrar cada pedaço partido com a mesma devoção com que honramos cada minuto de inteireza.
A vida é tão mais simples do que nos parece. O entusiasmo vem com a entrega.
A entrega traz a coragem. A coragem e o entusiasmo despertam o estado de graça. O estado de graça está em nós e faz magia. A vida é mágica. A bússola é o que nos faz vibrar. Não importa se amanhã há pedaços partidos. Importa que agora estejamos inteiros, mesmo de pedaços colados.
O agora é o novo para sempre.
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