-Vamos ver o mar? - desafiou-me.
Eu moro em frente ao mar, vejo-o todos os dias. Não seria por isso, certamente.
Hesitei no início. As mensagens mais simples podem confundir-nos, por vezes.
Dos meus olhos, eu sei. Estão preparados para todas as marés, mesmo as vivas que enchem a costa de lixo e reduzem o espaço do areal. De casa, consigo ouvir se as ondas estão calmas ou turbulentas, se o cheiro está intenso ou delicado. Sinto-o ao longe. Sei quase tudo deste mar, mesmo quando não olho para ele. Nos dias em que a turbulência está em mim, bastam-me uns minutos de contemplação, molhar os pés na água salgada gelada e deixar que suba e me refresque as ideias. O meu mar é muito meu. Tudo em mim é. Escolho a dedo com quem partilho o que acho que possuo.
Concordei, ainda assim, com o espírito aventureiro de quem procura sempre ver o lado desafiante das situações, mesmo sabendo que cada olhar tem a sua visão muito própria. No mesmo cenário, cada um vislumbra apenas o que consegue alcançar. Eu orgulho-me de ter uma visão periférica, não como a dos peixes, que não me sinto nada uma criatura marinha. Preciso do mar porque não o sou, mas por norma, encontro o que não é visível a olho nu com alguma facilidade. Analiso com curiosidade a paisagem, e sei ao que vou, mesmo que não pareça. Entro nas águas agitadas que assustam ao longe, porque sei que vou aprender com elas.
A experiência transforma quem não resiste a deixar-se fluir. Mas fui.
Quis ir, qual navegador de cabos e tormentas, preparada para mergulhos serenos e alguns naufrágios, sem brevets ou mapas, mas decidida a não largar o leme. Nunca nada se perde e é preciso alargar horizontes e partilhar pontos da mesma vista, mesmo que se sofra de medos, miupías ou astigmatismos e essas coisas todas que nos deturpam a realidade do que parece ser.
É tudo muito mais simples do que julgamos. A vida pode ser só uma história de miúdos destemidos que se divertem a navegar. As crianças sabem sempre do que importa, como o Pequeno Príncipe que na sua grandeza, sabia que o essencial é invisível aos olhos e certamente saberia que este passeio não era sobre ver o mar, mas sobre o "vamos".
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