Nada no mundo inteiro me salva tanto como a música. Explico porquê, não querendo depreciar a minha cozinha, a família ou os amigos que estão sempre lá com abraços preciosos e conversas indispensáveis. Nem o mar que me renova tanto, o bosque que me inspira, nem os livros ou as viagens e tudo o que há de maravilhoso nesta vida. Mas a música transforma-me em segundos, com a maior das autonomias. Sou só eu e os The Killers, hoje, com All these things that i've done, em modo karaoke sem monitor e em repeat, até absorver a nível celular.
De energia máxima injectada, decido-me a mudar a disposição dos móveis na sala. Viro o sofá umas 3 vezes, pobres costas, as minhas. Ainda bem que só tenho 4 paredes. Troco o móvel das gavetas de madeira maciça, que tem uma espécie de altar e também agradeci a sala ser um quadrado. Viro a mesa, também de madeira maciça e que não me deixa grandes opções. Não tenho assim tanto espaço de manobra. Que sorte, acho!
Quando finalmente me decido pela disposição aparentemente perfeita, fico com o quadro eléctrico à vista e a minha necessidade de harmonia não aguenta. Decido tapá-lo com um dos espelhos.
Fui buscar o berbequim e lembrei-me do dia em que o recebi de prenda. Uma caixa Black & Decker com uma mensagem subliminar do pai dos meus filhos - pára de me chatear para fazer furos nas paredes e descobre tu como se faz.
São curiosos os caminhos para a libertação. Por um lado queria que participasse no decor comigo, por outro podia furar o que me apetecesse sem esperar que colaborasse.
Sei que na altura senti um misto de revolta com emancipação.
Mais tarde, quando nos separámos e ganhei coragem para comprar um vibrador, já só senti a parte da emancipação. O momento até conseguir entrar na sexshop, que durou semanas, desde o dia em que assumi que queria, até ao dia em que entrei envergonhada, muito envergonhada e meio a tremer, foi todo um processo muito longo. Nem sei o que demorou mais, se assumir que queria, depois de uma conversa com amigas que falavam em brinquedos sexuais como eu falo de ingredientes de culinária, se entrar na loja. Tinha já uns quarenta anos quando dou por mim a perceber o quanto era púdica e estava impregnada em tabus, mas o mais estranho é que me surpreendeu, a constatação do facto. Entrei, decidida a deixar de ser o que não era. E saí de sorriso na cara e com um grau de satisfação tão elevado que já quase dispensava o brinquedo.
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