sábado, 22 de maio de 2021

Ponto de Viragem

Li algures, há algum tempo, que as maiores bênçãos nos aparecem disfarçadas de dolorosas lições. 
Que confusão me fez, na altura... Benção e dor não me faziam o menor sentido no mesmo contexto. 
Ainda hoje, talvez só entenda o processo quando já só sinto a leveza. Depois de largar as ilusões e cair na real. No início,  estranha-se, o desfoco, mas a queda liberta pesos e as asas acabam por se revelar, mesmo sem essa consciência, no momento.
Todos temos naturezas distintas, bem sei, e ainda bem. Mas também acredito que somos todos um pouco de tudo, apesar de alguns de nós manifestarmos mais umas coisas que outras. Porquê? Não faço ideia. O mundo deve precisar dessa  heterogeneidade. 
Nós, provavelmente precisamos de passar por tudo, para evoluirmos no caminho. 
Adiante, que não posso ter respostas para tudo. E sinceramente, cada vez quero menos. Parte da minha natureza, reconheço, é agir e reagir. Marte em carneiro, que sina... Sou uma fazedora. Tamanho cansaço!
É doloroso contrariar essências. Desfazer hábitos de anos é quase como uma amputação de um membro. Se há um problema, é preciso encontrar uma solução. Se há uma dúvida, é preciso esclarecê-la, se há uma brecha, vou repará-la - Adília Lopes, não és a única, lamento. 
Reparar os outros, claro. Manobras de distração, óbviamente.
Sim, tenho um complexo de Atlas, que é uma patologia que acabei de inventar só para mim, que sinto que sou a responsável por todos os males do mundo. 
Há uns 12 anos atrás, dizia-me o professor Medeiros - " Você é autónoma, não precisa de ninguém". 
Que drama, senhores! Se não preciso de ninguém, vou fazer o quê da minha vida? Como se vive sem cuidar de alguém?
Pobre lua em virgem, a cuidadora. 
Isto torna-se numa espécie de vício doentio que ajuda a desviar o foco do espelho. 
Toda uma vida a fazer coisas. Coisas que nem são minhas, para fazer. Faço as minhas e a papinha toda aos outros, coitados. É preciso cuidar, diz-me a lua. 
Os caminhos são individuais, mesmo quando convergem, contradiz-me a vida. 
Atlas, leva o mundo aos ombros. Faz o caminho pelo outro, porque é esse o seu papel. Eu até tenho as costas largas e tudo, mesmo que me justifique com os quatro anos de natação, há pesos que já não me cabem. Percursos que não me pertence fazer. 
-Não são meus! - percebo eu, de olhar perdido no mar, enquanto a Diana me faz uma trança no cabelo e confessa que o sonho dela é fazer penteados bonitos e não servir às mesas. Pego no Google para a ajudar a encontrar um rumo. Malvado instinto altruísta...
-- É preciso seguir os sonhos, menina! 
O André faz-me um Sipping Sunshine de tequila e manga, enfeitado com sementes de maracujá, o sol está despedir-se e eu decido sorvê-lo até à última gota e raio e largo o telefone. Pouso também o mundo na almofada azul e espreguiço-me com uma leveza desconhecida ao reconhecer o caminho que é só meu.
- Diana, faz-te à vida, se precisares de mim, estou aqui. 
 

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