quinta-feira, 27 de maio de 2021

Planeta distante.

Está o sol a desistir do dia quando saio do trabalho sem vontade de o acompanhar. Ainda não estou pronta para recolher. Sento-me na esplanada em frente ao mar, saco do meu livro e peço uma limonada e um húmus com chips que vou depenicando enquanto leio à média luz. 
- Lês bem assim? - pergunta-me o empregado que já me reconhece do local. - Já não há muita claridade. 
Estou tão envolvida nas páginas que nem o ouço. Toca-me no ombro e insiste. 
- Tu estás sempre no teu mundo, não estás? 
Pouso o livro e desço à Terra. Sorrio. 
- Sim, acho que sim. E nem de preciso de ler  livros para que isso aconteça. - respondo.
Ele segue para outra mesa e eu volto para o planeta Angela, sem o livro desta vez. Sempre tive um enorme fascínio pelas coisas do céu. Sol e lua, astros, estrelas, constelações, brilhos e poeiras, coisas lá de cima que me fazem virar o olhar e desviar-me o foco deste microcosmos em que vivemos. Não que queira fugir à realidade, até porque a realidade é relativa. 
O que é real é apenas o que percepcionamos. E o amor. O amor também é real. Viro o olhar para cima em busca de transcendência, de esperança, se calhar. 
Ou das respostas, ou da clareza. Talvez olhe para cima, mas esteja apenas virada para dentro. Não vivo no mundo da lua. Vivo no meu. Consigo fazer tudo daqui. De preferência com phones nos ouvidos e com as músicas das listas que me acompanham. 
Acho que com o passar dos anos saio cada vez menos do meu planeta e também seleciono cada vez mais quem deixo entrar. Não sinto  grande necessidade de conhecer pessoas e prefiro sítios pouco frequentados. É uma tortura ficar em filas à espera para o que quer que seja. 
Não por ter que esperar, mas porque prefiro escolher melhores formas de gastar o meu precioso tempo. Se toda a gente vai numa direcção, eu prefiro ir na outra. Descobrir eu o meu ponto cardeal. 
Há pessoas que dizem que não mudam, como se a vida fosse apenas uma linha recta em que se nasce e morre sem que nada nos afecte ou influencie. Também não compreendo os que dizem que mudam para pior... qual o objectivo de viver se não para se polir o diamante bruto que trazemos a este plano? Eu, já fui mais sociável, é um facto. Agora sou mais selectiva. 
Quando era miúda, muito miúda, passei por uma fase idêntica que me terá passado na adolescência em que saí completamente da caixa. Chamavam-me bicho do mato. Estou apenas voltar a mim, aparentemente. 

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