sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Kit de sobrevivência para mulheres de meia idade.



Ainda tenho no pulso a marca da queimadura profunda, que ganhei a semana passada enquanto fazia a sopa. 
Braços cheios de medalhas contornadas por tatuagens, desta guerra com utensílios de cozinha que escolhi para vida. Bem, escolhi ou fui escolhida, não sei como surgiu esta espécie de acordo que definiu o que faço, apesar da consciência me sussurrar que foi o efeito desafio. 
Isto de passar a vida a verbalizar que adoro desafios tem-me dado pano para mangas... Oxalá o pano tivesse dado também para pegas de panelas nos dias em que me esqueço que tenho uma pele a cobrir-me este corpo desajeitado. 
Sim, sou um pouco desajeitada, mas só às vezes, quando faço e penso muitas coisas ao mesmo tempo. 
Talvez por isso, tenha desenvolvido todo um mecanismo de sobrevivência que quando sujeita a uma dor física extrema, quase perco os sentidos e sou obrigada a parar durante uns bons minutos enquanto o meu todo faz uma espécie de reset. 
- Toma lá, Angela Maria, agora tens de parar quer queiras, quer não - diz a consciência.
Apesar disso, já pari duas crias em parto natural e fui operada de urgência à vesícula.
Mas tanto numa situação como na outra, o sofrimento era esperado e natural. 
Nas outras dores, as da alma, não sou nada assim, aí o tal mecanismo de sobrevivência envergonharia a Lois Lane do próprio alter ego. 
A primeira coisa que faço é negar, focar no lado positivo da situação. Mesmo que a olho nu nem exista. 
Se fica insistente, desvalorizo - tanta gente a sofrer muito neste mundo fora, isto não é nada, eu sou forte... 
-Força, vou aprendendo agora, é aceitar que sou humana, afinal. 
Facto 1 - Há vidas e dores nos outros que me levam questionar toda a minha fé no divino. 
Facto 2 - Eu também sofro, mesmo que não tenha uma dessas vidas.
De pulso ligado com emplastros de aloe vera, entre gemidos e resmungos de mal conseguir mexer a mão, vou almoçar com as meninas, um dos melhores remédios em qualquer kit de sobrevivência. 
O dia está quase tão quente quanto o vapor do raio da panela da sopa que me deixou esta marca e esta dor. Contrasta com o ânimo que já teve melhores dias. É o cansaço de agosto, as queimaduras e cicatrizes por dentro e por fora, a frustração e as epifanias das vivências dos últimos meses. 
Numa lamechice pegada, entre Coca-Cola com gelo e limão, risos e chips mergulhadas em maionese de alho e orégãos - a culpa só pode ser dos planetas retrógrados. 
Este ano não vai ficar nas boas memórias, certamente. Serve para aprender? Parece que a vida é uma escola. Anseamos pelo recreio enquanto esperamos boa nota nos exames. Já não temos idade para isto, concordamos divertidas, num brinde à amizade e a dias mais bonitos.
Ainda pensámos em Gin ou Mojitos, mas a responsabilidade de conduzir a seguir, foi mais forte que nós. Eu decidi que vou mudar o discurso que projecto para o Cosmos. 
- Sim, gosto de desafios, mas agora quero que todos os dias sejam fáceis manhãs de domingo, mas não as que estou a trabalhar. 
Também descobri que carrego no erres. Aos 47 anos. Às tantas é daquela série catalã que andei a ver nos últimos dias, tipo Sexo e a Cidade mas com outro salero e que me caiu que nem ginjas. Netflix e gelado de chocolate e caramelo, também essenciais em qualquer kit de sobrrrevivência. 

2 comentários:

  1. Esse mercúrio retrógrado está a sair pior que a encomenda...e quanto aos brindes, já sabes o que penso... Saudades de simplesmente estarmos...❤️

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