domingo, 22 de agosto de 2021

Princípios e fins.

Espero o final do dia, antes do pôr de sol, quando o sossego vai regressando devagarinho à praia e saio para o ritual indispensável, molhar pés na água salgada, que a essa hora o frio já não deixa molhar mais nada. Meto-me no carro a ouvir Arrival of the birds da The Cinematic Orchestra, que me deixa logo a flutuar e aparentemente a pastar no meio da estrada, enquanto sou ultrapassada por alguns condutores impacientes que buzinam. Passam-me totalmente ao lado. 
-Lamento, é o meu momento easy going do dia. Não há pressa que me chegue, impaciências que me afectem, obrigações que me prendam. Acompanhar o sol na despedida, quando se digna a aparecer, tornou-se essencial. 
Estaciono, agora já se consegue outra vez. Saio do carro descalça. Não é a primeira vez que esqueço os chinelos. Não fui feita para calçado, pelo menos no verão, já que no inverno o frio da região não dá tréguas e só as mãos frias é que compensam para um coração quente. 
Sigo direita ao mar que já parece esperar-me, mergulho as mãos e molho a cara. A frescura da água salgada renova-me. Sento-me na areia com a luz dourada, respiro fundo e agradeço o dia. 
Tão bom morar perto do mar que serve de companhia, refúgio e inspiração. E ter trabalho mesmo aqui ao lado, apesar do cansaço extremo.
Tão bom poder parar em silêncio a receber os últimos raios do astro majestoso.
De manhã, ao chegar cedinho mas sem grande tempo e com uma enorme lista mental de afazeres a não esquecer, ainda olho ao longe para as gaivotas que se ajuntam no mesmo areal no turno oposto e ficam em contemplação identica enquanto os veraneantes não chegam. Pelas oito da manhã o cenário no contorno da praia é de preparação para o dia. É o pão que se antecipa sempre e espera nas mesas das esplanadas, a senhora que limpa as casa de banho públicas a terminar a rota enquanto o marido aguarda no carrito de dois lugares que estaciona mesmo ao lado. As carrinhas de entregas de frescos que chegam para descarregar. Os gatos rodam o quiosque em busca de festas e comida.
O dia nasce numa espécie de câmara lenta previsível e, é quando quase chega ao fim que tudo volta a fazer sentido novamente.
Já tenho fome, mas não me apetece fazer jantar. É muito alimentar pessoas o resto do tempo. Além disso devia ter ido à mercearia buscar umas cenouras para fazer sopa e esqueci-me. Posso comer só pêssegos que já estão quase em fim de época e estão doces como o mel. Também comprei pão de fermentação lenta.
Não sei porque raio trouxe outra vez o gelado de chocolate e nata se só como a parte do chocolate, nem porque digo partir quando devia dizer cortar.

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