quinta-feira, 9 de setembro de 2021

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Peguei no elástico e enfiei-o no pulso. Esqueci-me que tinha cortado o cabelo. 
Não sei ainda se me sinto mais leve ou mais vazia. Curiosamente, sinto-me mais feminina livre de preconceitos. Como me esqueço de olhar ao espelho ainda não me reconheço no novo visual. Veio uma vontade tão grande de largar as folhas mortas, agora que o outono já está quase a chegar, afinal é a minha estação favorita. Devia ter um planeta só meu para viver o mundo da minha cabeça. Sei que alguém já inventou isto. Mas não queria ser princesa, nem ter coroa, rosas, raposas e vulcões ou algum cargo importante, sequer. 
Não queria mandar. Só tomar conta. 
Um mundo com as minhas pessoas, mares, tuyas e flores raras, montes de árvores de frutos e animais, de preferência exóticos, daqueles estranhos que fazem medo por serem diferentes. 
Podia ter pessoas que não fossem minhas, desde que também fossem exóticas e estranhas, fora das caixas que os deste mundo criaram. Tudo o que fosse diferente seria útil e bem vindo. 
Talvez lhe chamasse - o planeta sem caixas. 
Se calhar teria de regras, mas regras de  acordo comum. Seríamos poucos para evitar confusões. 
Levava os poetas e os músicos, é certo. Talvez também levasse os pintores e escultores, artistas em geral. 
Idealistas e altruístas. Voluntários e activistas. Gente que vê tudo de pernas para o ar. 
Lados B de discos e candeias das às avessas.
Também queria filósofos, romancistas e românticos. 
Sonhadores e concretizadores. Gente de pavio curto, mas coração longo e profundo. Palhaços, claro. Médicos e pessoas sem fronteiras. Bruxas e xamãs. Cuidadores e pessoas cuidadosas, atentas, preocupadas com o que importa. Professores de matérias mesmo úteis. Sábios e aprendizes cheios de boa vontade. Corajosos e destemidos. Pessoas que não desistem quando é preciso desbravar caminhos densos. Aventureiros e improvisadores. Criativos e intuitivos. Agricultores. Jardineiros. Cozinheiros, obviamente. Cantores e bailarinos.
Nada de WiFi, Google ou dicionários. Não posso com dicionários, nem com definições relativas de significados. Cada um sabe o que significa para si. Talvez a linguagem verbal fosse desnecessária e cada um comunicasse através da sua maior competência. Não teria dinheiro ou moedas. Só trocas, equilíbrios e simetrias assimétricas, com sentido para o todo. Também teria orquestras desafinadas à procura do tom e toda a fruta com grainhas do mundo. 

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