Saio da praia já com sabor a outono. Deixo o mar e o areal quase vazio. Ficam as gaivotas. Trago conchas.
O regresso do sossego está à porta.
A chegar.
A luz dourada. O aroma das uvas morangueiras. As folhas que voam para dentro do quintal. Vento. Libertação.
Não quero arrancar as ervas do meio das pedras. Se nascem fortes e resistentes, sem água ou cuidados, se crescem, tão persistentes, porque não as hei-de deixar estar? Que sejam o que querem ser.
Que estejam. Livres. Daninhas, inúteis, sobreviventes, indesejáveis.
Presas à vida. Sem pressa.
Dão cor ao chão que piso. Suavidade.
Impulso, pirueta, improviso. Instinto.
Detesto manuais. Não faço só porque sim. Gosto de rituais. Pés descalços. O sol ainda queima. O peito aperta.
Quero sempre mais. Não quero mais do mesmo, quero mesmo o mais. Ar.
Água fresca. Final do dia. A neblina.
Rego as plantas.
A melancolia.
Dispenso a tristeza.
Às vezes também dispenso a alegria. Fico pelo limbo. O limbo é a melancolia.
A simetria. A polpa. A essência.
O resto cansa.
Será que as árvores se cansam de dar frutos? O sol às vezes não brilha.
A gata no canteiro, pensa que é flor.
A espera. A solitude que fica. As promessas. Amanhã é outro dia. O silêncio. A primeira estrela no céu.
Cabeça dura. Corpo mole. O alecrim secou. O ar denso e pesado do verão em despedida. Trovoada. Vento forte. As folhas em rodopio. Os sons da tarde. A maresia. Pele morena a colar. Olhos húmidos.
Forno quente. A sétima de Beethoven.
Os cheiros. Sinfonia.
Bolo de banana e chocolate. Teimosia.
Lembrete : Não deixar migalhas no chão para esquecer regressos.
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