sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Oximoro

Fecho a porta e não abro a janela. 
Quero o calor suave da luminosidade que invade a sala a esta hora. 
Guardo o silêncio em casa. 
Gosto de setembros e marços, primaveras e outonos. 
Estações das delicadezas.
Gosto da luz doce, média. Amarelada. Quente.
O ano passou muito rápido ou fui eu que voei sobre ele a ritmo tal que nem dei por chegar aqui. 
Se fosse um pássaro não seria um falcão peregrino, a mais veloz de todas as criaturas aladas, nem sei a que velocidade voam os melros, mas pronto, sou humana e o meu tempo interior parece não obedecer a regras comuns, por muito que me custe e me distancie do todo. 
Às vezes não dou por mim... 
Isto de ter um mundo muito próprio, dá um certo desfasamento do resto da vida. 
Por vezes, sinto-me como numa espécie de linha intemporal, quase paralela e em alguns momentos volto à terra. 
É muito fogo-ar, numa só pessoa. 
Toda a gente sabe que o ar quente sobe. 
Corpo presente, alma noutro lugar qualquer. 
Se calhar é por isso que nunca me olho ao espelho.
Cozinhar faz-me descer, mesmo que viaje durante o processo. É uma viagem de regresso. O foco vem com a entrega ao momento. Quando tenho dificuldade em enraizar, pôr os pés no chão e a mente no coração, recito uma espécie de mantras que me seguram.
Mantra - segundo a wikipédia, esse monstro incontornável de sabedoria contemporânea - " Fórmula mística e ritual recitada ou cantada repetidamente pelos fiéis de certas correntes budistas e hinduístas. O termo é uma palavra em sânscrito que significa 'controle da mente'."
Como em tudo na vida, tenho que me desviar da corrente e estabelecer o meu próprio método desordenado. 

- Abrunhos, allperces, alecrim, batata doce, beterraba, brócolos, coentros, couve roxa, curcuma, figos, framboesas, maçãs, mangas, maracujá, mirtilos, nabos, nigela sativa, paprika, pimentos, pleurotos, sálvia, tomilho.

Dá sempre jeito ir variando ingredientes, mas ir chamando por eles. 
Eles chamam por mim. Eu venho. 
Apalpo, cheiro, descasco, corto, parto, envolvo, misturo, fundo, transformo e sou transformada num momento sem lugar, sem pesos ou medidas, nem receitas. 
Aqui e agora. A ordem do meu caos.

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