domingo, 19 de setembro de 2021

Ritmos e arritmias.

Quem me conhece mesmo de muito perto sabe que, entre outros, tenho um hábito que pode exasperar algumas pessoas.... 
Fases em que preciso ouvir a mesma música em repeat, todo o santo dia. 
Pode até durar mais que um dia, confesso. 
Costumo justificar, quando alguém resmunga, que o meu cérebro precisa conhecer de cor todos os sons, notas e compassos dessa melodia, cantada ou não, até a assimilar totalmente e a poder libertar. 
Não significa que nunca mais tenha vontade da ouvir depois. São momentos apenas, que me parecem aleatórios e de nada estão relacionados com estados de espírito, acho.
Não preciso sentir-me triste para ouvir música que os outros consideram deprimente, nem corro a ouvir todos os hits dos anos 80, quando me sinto feliz. Não consigo sequer identificar tristeza e alegria na música. 
Ou ressoa em mim ou não, seja porque razão for. O sentido é sempre para cima ou para dentro, nunca para baixo, na minha percepção da coisa.
Tal como na cozinha, o processo de escolha é espontâneo e intuitivo, não consciente. Posso ter sonhado que ouvia esse tema ou acordar com ele a tocar na minha cabeça - juro que o meu cérebro tem uma jukebox - ou pura e simplesmente ir buscá-lo sem perceber porquê, como naqueles dias em que vamos a conduzir e nem nos lembramos por onde passámos quando chegamos ao destino. 
Se ressoa com o momento, repito-o.
Também faço isto com as cerejas, favas e pêssegos rosa de Colares. 
Se é época, preciso aproveitar e comer sempre que posso, para neste caso aguardar serenamente com armazenamento celular suficiente até a colheita do ano seguinte. 
A ciência tem uma explicação para a parte da comida, dizem os nutricionistas que se sentimos falta de chocolate é porque estamos com défice de magnésio ou se morremos por um café, é o corpo a avisar que necessita de ferro e por aí fora.
Enfim, há sempre uma explicação para quase tudo, por isso decidi procurar uma para a minha mania de precisar de repetir exaustivamente as músicas que gosto muito. 
As pessoas gostam de explicações científicas e factos. Isso sossega-as e assim permitem-nos viver como queremos sem acharem que sofremos de alguma psicose.
É um facto, não sei se científico ou não, que música é alimento para o cérebro. 
Também é facto que tudo no universo é energia e que essa energia vibra a determinadas frequências. 
Parece-me óbvio que, se o nosso corpo está consciente da necessidade de vitaminas e minerais também estará da vibração das músicas que precisamos ouvir. 
Toma lá, António Damásio!

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